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Dr. Lino Ercole salvou milhares de vidas campo-larguenses e deixou sua marca registrada

Dr. Lino Ercole foi um grande médico, que exerceu a Medicina por 61 anos e que deixou sua marca registrada ao salvar milhares de vidas em Campo Largo, sendo referência como um dos únicos do município durante a década de 1960 e 1970

Por: Caroline Paulart
Um homem culto, que gostava muito de ler, estar bem informado desde a adolescência, especialmente sobre livros ligados à Biologia. Dr. Lino Ercole foi um grande médico, que exerceu a Medicina por 61 anos e que deixou sua marca registrada ao salvar milhares de vidas em Campo Largo, sendo referência como um dos únicos do município durante a década de 1960 e 1970. 
 
A Folha de Campo Largo conversou com sua filha, a Dra. Linete Ercole, médica rematologista e que se inspirou no pai para construir sua carreira, que dividiu várias histórias sobre o médico generalista que atendia do bebê ao vovô – muitas vezes durante a madrugada e gratuitamente. 
“Meu pai nasceu em 25 de outubro de 1924 e se formou na Universidade Federal do Paraná em 17 de dezembro de 1948. Ainda no terceiro ano da faculdade de Medicina, ele atravessou um dos momentos mais delicados da sua vida, quando perdeu sua mãe para um câncer. Naquela época, durante a juventude, era obrigatório o alistamento no CPOR do Exército e meu pai foi o 2º Tenente. Depois de se formar, fez residência em Santos, no estado de São Paulo, por seis meses e também morou no Mato Grosso, por três meses. Mudou-se para Santa Catarina, para o município de Xanxerê, onde viveu por 15 anos e atuou como médico.”
 
Sua ligação com o município de Campo Largo começou quando conheceu dona Elvi Parolin Ercole, filha de Gino Parolin, proprietário da Cerâmica Campo Largo. Eles foram apresentados por um amigo de infância do Dr. Lino, que inclusive cursou Medicina com ele na UFPR, chamado Dr. Jacir Ribas. Ele se casou com a irmã da dona Elvi e a apresentou para o Dr. Lino. Permaneceram casados por 55 anos e com ela teve duas filhas, Linete e Darieli, e dois netos, que também seguiram a carreira do avó. 
 
Vinda para Campo Largo
Foi em março de 1965, para ficar mais próximo da família, que Dr. Lino e Dona Elvi decidiram vir morar em Campo Largo. A cidade ainda era pequena e estava em desenvolvimento. “Havia três médicos bastante conhecidos, que era o meu pai, Dr. Lino, o Dr. Marcondes e o Dr. Atílio Barbosa, que atendiam no Hospital São Lucas. O Hospital Nossa Senhora do Rocio ainda era pequeno e dava os primeiros passos”, comenta Dra. Linete. 
 
Não havia médico anestesista na cidade, então para pequenos procedimentos, o médico mesmo realizava a anestesia e a cirurgia. A enfermeira ficava acompanhando o paciente. Já cirurgias maiores era preciso que o médico encaminhasse o paciente para Curitiba, que tinha mais estrutura. 
 
Atendimentos a cavalo, carroça e jipe
“Como a cidade era muito pequena, meu pai ia até o paciente da forma que era possível. Já realizou atendimentos a cavalo, de carroça e jipe, principalmente quando era no interior da cidade e as casas eram de difícil acesso. Hoje temos ambulância e naquela época não existia. Era muito comum ter parteiras, então quando algo acontecia de errado no procedimento, corriam chamar o médico na cidade para atender a mãe no interior. Então o médico corria para lá. Ou tinha que esperar a gestante entrar em trabalho de parto e acabava dormindo dois dias no interior, para não perder a viagem. Enquanto isso, realizava atendimentos”, conta Dra. Linete.
 
Ao longos dos mais de 60 anos de atuação, Dr. Lino pode ver vários casos da Medicina, como sarampo, poliomielite, tétano, o avanço das vacinas e do Sistema Único de Saúde – SUS. Ele nunca pegou nenhuma doença dos seus pacientes e sempre foi muito cuidadoso para evitar as contaminações. Estava sempre bem atualizado, participando de congressos e, como comenta Dra. Linete, “a Medicina era sua paixão”. 
 
“Tive o prazer de trabalhar com o meu pai, ter ele como meu mentor, discutir casos e abordagens com ele, ainda que nossas especialidades fossem diferentes. Ele sempre se interessou por tudo. Ele era médico por amor, exercia a Medicina porque amava as pessoas e queria ajudá-las, conhecia as famílias e seus históricos. Isso o deixou um pouco triste quando surgiu o SUS, porque era limitado a uma consulta por mês. Estamos falando de um tempo que a terapia não era popular como é hoje, que o médico era psicólogo também. Muitas mulheres o procuravam para tratar o marido alcoólatra, problemas de depressão e ansiedade, que existiam muito naquela época. Os problemas emocionais interferem no diagnóstico final e ele considerava isso desde aquele tempo”, ressalta. 
 
Dr. Lino chegou a montar um consultório em sua casa para atender pacientes na madrugada. De presente, daqueles que não podiam pagar a consulta, várias vezes recebeu sacos de batata, cebola, tomate, carne de porco, garrafões de vinho, entre outros. Por dia, ele chegava a realizar de 18 a 20 consultas. Para todos, a atenção era única.  
 
O Lino Ercole em casa
Reservado, Dra. Linete comenta que Dr. Lino foi um pai maravilhoso, mas que sempre foi bastante atento aos estudos das filhas e reforçava que elas precisavam concluir o ensino superior, pois as mulheres precisavam ter uma profissão. Tinha como passatempo a filatelia – colecionava selos – e ganhou prêmios internacionais com a prática, especialmente pela sua coleção “Cruz Vermelha Internacional”. 
 
“Era muito apegado aos netos, gostava de ler as histórias do Tio Patinhas e fazia a voz parecida para eles. Eles adoravam. Era muito paciente e calmo em todas as situações. Também muito apaixonado pela minha mãe”, comenta Dra. Linete. 
 
Dr. Lino Ercole faleceu em 14 de março de 2010, seis meses após parar os atendimentos. 
“Meu pai sempre atendeu a todos de maneira igual, preservando os segredos que passaram pelas salas do seu consultório ao longo daqueles 61 anos. Nós, da família Ercole, só temos a agradecer por todo o carinho de pessoas que ainda lembram dele e confiaram suas vidas nas mãos dele. Foi uma pessoa que ensinou muitas coisas para todos nós”, finaliza.
 
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