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Por trás da mulher que sustenta tudo, existe alguém que também precisa de cuidado, orienta psicóloga

Por trás da mulher que sustenta tudo, existe alguém que também precisa de cuidado, orienta psicóloga

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 08 de março, frequentemente é associado a homenagens, flores e mensagens de reconhecimento. No entanto, por trás das celebrações, dados e pesquisas revelam uma realidade marcada por sobrecarga e múltiplas expectativas sociais sobre as mulheres. No Brasil, a divisão desigual das responsabilidades domésticas e de cuidado continua sendo um dos fatores que ampliam essa pressão. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) indicam que as mulheres dedicam cerca de 21,4 horas semanais a tarefas domésticas e cuidados, enquanto os homens gastam aproximadamente 11 horas com as mesmas atividades.
Outro levantamento, divulgado pela ONG Think Olga, mostra que 86% das mulheres brasileiras afirmam sentir uma grande carga de responsabilidades, e quase metade relata ter diagnóstico de ansiedade, depressão ou outros transtornos emocionais. Esse cenário evidencia o que especialistas chamam de “carga mental”, um conjunto de tarefas invisíveis que envolvem planejamento, organização e cuidado constante com a rotina da casa e da família, responsabilidades que ainda recaem majoritariamente sobre as mulheres.
A Folha de Campo Largo conversou com a psicóloga Marília Boaron, que há 18 anos trabalha observando a subjetividade feminina em consultório, percebendo, como ela mesma descreve, que a “síndrome da mulher maravilha” é um dos maiores focos de sofrimento que atende. “Zelar, amparar, pacificar, acolher, sorrir, administrar a rotina, garantir que todos ao entorno estejam bem, elaborar o inventário doméstico, memorizar as preferências de cada um, satisfazer expectativas. Exercer a excelência como amiga, como mãe, como filha, como esposa. Criou-se a ilusão de que a mulher moderna precisa ter a sensibilidade do cuidado e a força da produção. O problema é que, ao tentar dar conta de tudo, a mulher acaba se desconectando de si mesma. Ela vive para os papéis que desempenha e é tão engolida por eles que esquece de quem é a mulher por trás daquelas funções.”
Perguntada sobre o motivo dessa necessidade de parecer sempre excelente, nas mais variadas frentes de atuação, a psicóloga explica que existe na mulher um processo internalizado de obediência. “Estamos olhando para uma estrutura que moldou a identidade feminina durante séculos. O sentimento de insuficiência não é uma falha individual da mulher, mas o resultado de um sistema que ainda a enxerga como uma engrenagem e não como um ser humano com direito ao descanso ou a ser mediana. O sujeito (homem) tem direito ao lazer e ao ócio sem culpa. O objeto (mulher) só tem valor enquanto está sendo útil, e assim desumanizamos a mulher”, ilustra. 
Assim, segundo ela, as mulheres acabam herdando o peso do cuidado invisível, do trabalho doméstico e a gestão emocional da família. Com o advento das redes sociais, ela descreve que também se cria uma vitrine onde a vida parece perfeita, gerando uma comparação desleal. “Existe, sim, traços de personalidade que podem ‘engrossar esse caldo’. Mulheres com tendências perfeccionistas e alta necessidade de controle são mais suscetíveis a cair nessa armadilha, pois usam a produtividade como um mecanismo de defesa contra a ansiedade e a vulnerabilidade”, alerta. 

Sinais de alerta
O sinal mais claro de que algo pode estar errado com a saúde mental é a anestesia emocional, ou seja, quando a mulher começa a funcionar no “piloto automático”, perdendo o prazer em atividades que antes gostava. 
“Outros sinais incluem irritabilidade constante, alterações de sono e memória, como o esquecimento de coisas simples por excesso de carga mental, como se estivesse com uma névoa mental; sintomas psicossomáticos como dores de cabeça, tensões musculares, problemas digestivos; um sentimento de ‘fraude’ ou ‘impostora’ constante, onde ela sente que, apesar de fazer muito, nunca é o suficiente.  A falta está internalizada”, diz.
A culpa também é um sentimento que se torna recorrente, alerta. “Quando ela para, sente culpa por não estar produzindo, quando produz, a mulher que é mãe, sente culpa por não estar presente com os filhos. O impacto emocional é devastador: a culpa retira a autonomia da mulher, fazendo com que ela tome decisões baseada no medo do julgamento, e não nos seus próprios desejos. Ela vive sob um tribunal interno que nunca descansa. O risco de se manter nesse ciclo é que o outro passa a tratá-la do modo como ela mesma se trata, ou seja, na culpa.”
Porém ressalta que a culpa é administrável, uma vez que a sensação de liberdade não se administra, ou se sente livre ou não. “Uma das formas de administrar a culpa é se responsabilizar pelo espaço deixado pela dificuldade de impor limite. A culpa é uma catapulta que te manda para o passado, já a responsabilização, para o futuro”, orienta.

Como lidar com tudo isso? 
Para Marília, o termo “equilíbrio” é um mito que gera mais ansiedade e frustação, por isso, é melhor adotar o método das escolhas conscientes. “É preciso encarar a realidade de que você não vai equilibrar todos os pratos, mas você pode escolher quais pratos pode deixar cair. Algumas estratégias são: o ‘não’ como ferramenta de autocuidado, entender que dizer sim para todo mundo é dizer não para si mesma. Técnica das soluções imperfeitas: exercitar fazer algo ‘bom o suficiente’ em vez de ‘perfeito’. Fazer o mínimo viável diário no que diz respeito a exercícios físicos, alimentação e qualidade de sono. Conhecer a lista de direitos humanos básico e aceitar a própria limitação humana”, comenta. 
Neste 08 de março, o convite que a psicóloga faz às mulheres não é para que sejam mais produtivas, mas para que sejam mais autênticas. “A maior rebeldia que uma mulher pode ter hoje não é dar conta de tudo, mas ter a coragem de ser humana e pedir ajuda. A sororidade é o que nos permite tirar a capa de ‘Mulher Maravilha’ e descansar, sabendo que não estamos sós. Meu desejo genuíno é que, você mulher, se sinta abraçada com essa leitura”, finaliza.