Opinião

Quando a realidade educa pela dor

Quando a realidade educa pela dor

O plenário do Tribunal do Júri em Campo Largo foi ocupado nesta semana por um elemento menos comum, e mais necessário, o impacto pedagógico da realidade. A iniciativa do Ministério Público, ao levar cerca de 80 estudantes do Ensino Médio para acompanhar um julgamento de feminicídio, desloca o debate sobre violência de gênero do campo abstrato para o concreto, onde ele, de fato, se manifesta com todas as suas consequências.
O caso julgado não permite distanciamento. Um homem de 27 anos foi condenado a 26 anos e 8 meses de prisão por um crime ocorrido em fevereiro de 2025, no bairro Rivabem. Movido por ciúmes, tentou matar a própria companheira a facadas, conforme a denúncia, e não conseguiu. No lugar dela, matou o irmão que se colocou entre os dois para defendê-la, sendo este um gesto de proteção que custou a vida. Uma dinâmica que expõe o padrão recorrente da violência doméstica, desde a escalada, o descontrole, a ideia distorcida de posse.
Ao reconhecer o feminicídio, ainda que a vítima fatal não fosse a mulher inicialmente visada, o Conselho de Sentença reafirma que a motivação do crime importa. E, neste caso, ela está enraizada em um modelo de relacionamento marcado pelo controle, pelo ciúme e pela incapacidade de reconhecer a autonomia da mulher. Mas é fora dos autos que a iniciativa mais provoca reflexão. A presença das estudantes no plenário não foi mero simbolismo, foi confronto direto com as consequências extremas de relações tóxicas que, muitas vezes, começam de forma silenciosa, com uma palavra agressiva, uma tentativa de controle, uma invasão de limites. A proposta do Ministério Público, construída a partir de palestras em escolas sobre direitos das mulheres e violência doméstica, ganha densidade quando se materializa diante dos olhos dessas jovens.
Ainda assim, é impossível ignorar o caráter desconcertante da experiência. Julgamentos dessa natureza não são narrativas neutras, mas são relatos atravessados por dor, com fotografias da vítima exibidas e detalhes do crime que vieram à tona. Entre os presentes, estava a irmã, que foi sobrevivente e testemunha, obrigada a revisitar, em público, aquele que possivelmente foi um dos episódios mais traumáticos de sua vida. Há, nesse ponto, uma tensão inevitável entre o valor educativo da iniciativa e o peso emocional que ela carrega, o que não invalida a proposta, mas, evidencia sua seriedade. Educar para a prevenção da violência exige mais do que campanhas genéricas; exige contato com a realidade, ainda que ela seja dura. A romantização de relações abusivas, tão presente em discursos cotidianos, não resiste quando confrontada com suas consequências finais.
Há, porém, um ponto que precisa ser enfatizado com igual rigor, de que o enfrentamento da violência contra a mulher não pode se limitar à orientação das potenciais vítimas. É necessário avançar na formação de homens que não internalizem a ideia de que a mulher lhes pertence. Levar jovens mulheres ao Tribunal do Júri é uma estratégia relevante de conscientização, mas ela precisa ser acompanhada, com a mesma intensidade, por ações voltadas aos jovens homens, para que eles possam reconfigurar noções de masculinidade que ainda se sustentam na posse e na violência.

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