Implantado em 2006, o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Campo Largo é referência no atendimento a pessoas com transtornos mentais graves e persistentes no município. Integrante da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do Sistema Único de Saúde (SUS), o serviço realiza, atualmente, cerca de 600 atendimentos mensais, entre acolhimentos, consultas individuais, grupos terapêuticos e oficinas.
De acordo com a psicóloga da Divisão de Saúde Mental de Campo Largo, Dra. Mariane Bonato, o CAPS foi criado a partir da regulamentação da Reforma Psiquiátrica, estabelecida pela Lei nº 10.216/2001, que reformulou o modelo de atenção em saúde mental no Brasil. “O primeiro CAPS de Campo Largo foi inaugurado em 2006. Antes disso, os atendimentos eram feitos de forma ambulatorial no NIS, com consultas individuais, e os casos mais graves acabavam sendo encaminhados para hospitais psiquiátricos”, explica.
O médico psiquiatra do CAPS II de Campo Largo, Dr. Eduardo Santos, complementa que, naquele período inicial, o perfil dos pacientes era marcado por quadros de maior cronicidade. “Com o CAPS, passamos a oferecer um cuidado mais contínuo, territorial e humanizado, evitando internações prolongadas e fortalecendo o vínculo com a comunidade”, destaca.
Atendimento multiprofissional
e plano individualizado
Atualmente, a equipe do CAPS de Campo Largo é composta por dois médicos psiquiatras, quatro psicólogos, terapeuta ocupacional, assistente social, enfermeira, técnica de enfermagem, oficineiro, além de equipe administrativa e de apoio.
O atendimento vai além das consultas médicas. “O foco não é apenas ambulatorial. Trabalhamos com acompanhamento individual, grupos terapêuticos, oficinas, assembleias, atividades comemorativas e até passeios. Tudo isso faz parte do Plano Terapêutico Singular de cada paciente”, explica Dr. Eduardo.
Segundo a Dra. Mariane, quanto maior o nível de gravidade do quadro, mais estratégias são necessárias para estabilização e acompanhamento. “O tratamento é construído de forma conjunta, respeitando a singularidade de cada pessoa”, afirma.
Perfil dos pacientes
atendidos no município
O CAPS atende pessoas a partir dos 17 anos, encaminhadas pelas Unidades Básicas de Saúde ou por demanda espontânea, durante o acolhimento, que ocorre diariamente nos períodos da manhã e da tarde, sem necessidade de agendamento prévio.
Conforme Dr. Eduardo, o perfil dos pacientes reflete características específicas do município. “Campo Largo tem uma população bastante diversa, com moradores da zona rural, famílias que vivem aqui há gerações e também pessoas que migraram em busca de trabalho. Em alguns casos, especialmente na área rural, há maior isolamento social e dificuldade de acesso aos serviços de saúde”, observa.
O serviço concentra, principalmente, casos de transtornos mentais graves, como esquizofrenia, além de pessoas com deficiência intelectual e outras condições que exigem acompanhamento contínuo.
A Dra. Mariane acrescenta que também há uma demanda expressiva relacionada a processos de luto, trabalhados de forma específica no CAPS, além de queixas frequentes de ansiedade, especialmente entre adultos jovens.
Olhar além do aspecto clínico
Por atender exclusivamente pacientes do SUS, muitos casos acompanhados pelo CAPS envolvem não apenas questões clínicas, mas também fatores sociais e econômicos. “Grande parte dos pacientes tem nível socioeconômico mais baixo, enfrenta dificuldades financeiras, educacionais e, muitas vezes, possui núcleos familiares fragilizados. Esses fatores não se resolvem apenas com medicação”, explica Dr. Eduardo.
Segundo ele, o tratamento exige um olhar ampliado, que considere a interação entre fatores genéticos, biológicos e ambientais. “Situações como negligência na infância, baixa escolaridade ou falta de suporte social podem se acumular ao longo da vida e desencadear quadros mais graves”, ressalta.
Rede de atendimento e acesso ao serviço
Em situações de urgência ou surto, o encaminhamento deve ser feito pela UPA, que atua em parceria com o CAPS por meio do chamado matriciamento, um trabalho conjunto entre as equipes para garantir continuidade do cuidado.
Para crianças e adolescentes, o fluxo é diferente. “Este CAPS atende a partir dos 17 anos. Os menores são inicialmente acompanhados pelas Unidades Básicas de Saúde e, quando necessário, encaminhados ao ambulatório infantojuvenil da Unidade da Mulher e da Criança”, explica Dra. Mariane.
Desafios e prevenção
Entre os principais desafios enfrentados no município, os profissionais destacam o preconceito ainda existente em relação aos transtornos mentais, além de novas demandas, como a dependência tecnológica e de jogos.
Para Dr. Eduardo, a prevenção passa pelo reconhecimento precoce dos sinais e por hábitos saudáveis. “Muitas pessoas sofrem sem perceber que aquilo tem tratamento. Um estilo de vida equilibrado, com atividade física, alimentação regular, sono adequado, controle do uso de substâncias e relações de apoio, é fundamental para a saúde mental”, conclui.
Saúde
CAPS de Campo Largo atende cerca de 600 pessoas por mês e concentra casos de transtornos mentais diversos