Domingo às 11 de Janeiro de 2026 às 12:13:49
Opinião

A urgência de linguagem simples em um país que ainda luta para saber ler

A urgência de linguagem simples em um país que ainda luta para saber ler

A sanção da Política Nacional de Linguagem Simples, que determina o uso da norma-padrão da Língua Portuguesa em documentos oficiais e proibe a utilização de formas alternativas de flexão de gênero, como a linguagem neutra, traz para a comunidade um debate bastante válido e reflexivo, de que antes de multiplicarmos os "códigos linguísticos", é necessário garantir que todos compreendam o básico. Em um país onde três em cada dez brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais, a clareza da comunicação pública não é apenas uma escolha administrativa, mas deve ser uma obrigação social.
Essa nova lei, ao exigir objetividade, vocabulário comum e frases mais diretas, poderá facilitar a vida de uma grande parte da população, que ainda tem dificuldade de compreender textos simples. Os dados recentes do Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), ainda de 2025, mostram que 29% dos brasileiros não conseguem interpretar frases curtas ou identificar números e informações básicas. Entre jovens de 15 a 29 anos, o índice de analfabetismo funcional aumentou para 16%. Diante desse quadro alarmante, é inegável que introduzir variações linguísticas que são desconhecidas pela maior parte da população poderia ampliar barreiras e aprofundar desigualdades.
Não se trata de negar a existência de grupos que reivindicam maior representatividade linguística, mas de reconhecer que a comunicação oficial precisa priorizar a compreensão universal. Quando o poder público se dirige ao cidadão, ele o faz a todos, inclusive àqueles que necessitam de uma maior clareza para acessar seus direitos. Nesse sentido, a linguagem neutra, ainda restrita a nichos socioculturais por assim dizer, não atende ao requisito fundamental de estar acessível a todos os grupos e ainda demorará muito tempo para atingir este nível.
A própria lei, ao definir padrões como frases curtas, organização lógica da informação e eliminação de jargões, oferece um passo decisivo para reduzir ruídos entre governo e população. Uma linguagem clara diminui custos de atendimento, evita intermediários e fortalece o direito à informação, requisito básico para o exercício da cidadania. Neste ponto, a política não é retrocesso, mas avanço democrático, que prioriza a simplicidade porque reconhece que a complexidade linguística do Estado tem sido, em toda a nossa história, também um instrumento de exclusão.
É preciso lembrar que o Brasil ainda falha em garantir pleno domínio da língua materna às suas crianças e jovens. Apenas 10% da população atinge o nível proficiente de alfabetismo. Antes de criarmos novas camadas de linguagem oficial, o país precisa concentrar esforços em assegurar que todos tenham acesso à leitura, à escrita e à interpretação em seu nível mais básico. Em um país que ainda luta para alfabetizar plenamente seus cidadãos, falar claro é mais que uma escolha técnica, deve ser visto como um ato de responsabilidade social.