Em meados de agosto, o OpenAI, responsável pelo ChatGPT, divulgou que o Brasil é o terceiro país no ranking dos que mais utilizam a ferramenta em todo o mundo. Diariamente, são cerca de 140 milhões de mensagens trocadas entre os usuários e a inteligência artificial, com a maior finalidade voltada para o trabalho. Entretanto, a Agência Brasil, agência de notícias oficial do Governo Federal do Brasil, vinculada à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), divulgou em maio deste ano que muitos usuários utilizavam a ferramenta para o que chamou de “sessões de terapia”, o que fez com que o Conselho Federal de Psicologia criasse um grupo de trabalho para discutir o uso da inteligência artificial com fins terapêuticos, orientados ou não.
Segundo a matéria oficial, a revista Harvard Business Review, editada pela escola de pós-graduação em administração da faculdade americana de Harvard, publicou um levantamento que mostra que o aconselhamento terapêutico se tornou o principal objetivo das pessoas ao utilizar ferramentas de IA este ano, ao lado da busca por companhia, o que desperta um alerta nos profissionais e na Saúde Pública como um todo.
A Folha conversou com a mestre em Psicologia, Éllen Martins, que explicou mais sobre os processos da terapia e também do uso do ChatGPT nestes contextos. Segundo ela, muitas pessoas têm recorrido ao ChatGPT como se fosse uma espécie de “terapeuta virtual”. Sobre isso, alerta que é fundamental compreender o que de fato significa fazer terapia. “O psicólogo é uma pessoa estudada e treinada para ouvir e orientar os pacientes, sem julgamento e de forma impessoal, baseada em critérios científicos para a sua atuação. Não podemos fazer terapia conversando com amigos ou com a família, pois estas pessoas têm opiniões enviesadas e julgamentos que não são baseados em ciência.”
Apesar de reconhecer que a Inteligência Artificial pode se basear em referências científicas em alguns casos, a especialista reforça que isto não é uma regra, e que é comum que o ChatGPT cometa erros, pois é uma ferramenta em constante desenvolvimento. “Além disso, a Inteligência Artificial é treinada a conversar com o próprio usuário, utilizando informações do mesmo, se tornando assim uma conversa imparcial e bastante enviesada, pois muitas vezes ele irá responder o que o usuário gostaria de ouvir”, ressalta.
Acrescenta que a ferramenta pode ser útil como auxiliar em tarefas cotidianas, mas jamais substitui o psicólogo. “Em meu trabalho já utilizei o ChatGPT para fazer contas e gráficos e ele cometeu erros muito bobos. Cabe ao usuário ter autoconhecimento e senso crítico de saber o que perguntar e o que absorver dali ou não. Acredito que o uso sem este conhecimento se torna arriscado, pois aquele que não estiver saudável vai utilizar a ferramenta de forma não saudável, treiná-la com pensamentos não saudáveis e receber respostas não saudáveis. As consequências podem ser terríveis, como já estamos vendo acontecer”, diz.
Diferenças entre IA e terapia tradicional
Segundo Éllen, a principal diferença entre o que a IA oferece e o processo terapêutico real está na profundidade e complexidade da intervenção. “Um processo terapêutico não é um bate-papo. O terapeuta faz perguntas direcionadas e baseadas em método científico, analisa toda a história de vida do paciente e a relação disso com os problemas atuais, seu histórico de saúde, escolar, relacional e laboral, muito além do que as pessoas informam para a IA”, explica.
Ela ainda destaca que a terapia envolve elementos que a IA não consegue reproduzir. “Uma conversa com um psicólogo envolve mais do que apenas a fala e escuta. Também possui análise de expressões corporais, tom de voz, aliança terapêutica e variados sistemas que a IA não consegue atingir. O psicólogo constrói vínculo, planeja intervenções, acompanha a evolução do paciente e indica estratégias ou encaminhamentos para outros profissionais. A IA pode dar respostas rápidas, mas não cria um processo de transformação real, que exige relação, tempo e acompanhamento”.
Neste sentido de obter respostas rápidas, a mestre em Psicologia levanta um ponto trazido também por outros especialistas, que é o risco de a IA deixar o cérebro “preguiçoso”, entregando respostas prontas. Segundo ela, no campo emocional, isso também ocorre. “O paciente não quer uma resposta pronta do psicólogo. O que se deseja em um bom processo terapêutico é ser conduzido a encontrar as suas próprias respostas e engajar-se no próprio processo de mudança pessoal, baseado nas próprias escolhas”, explica Ellen.
Ela alerta que a IA, embora organize informações, não promove mudanças significativas a longo prazo. “Se mal utilizada, a IA pode reforçar a evitação, ou seja a pessoa lê, se acalma momentaneamente, mas não transforma, não muda nada em sua vida. Autoconhecimento exige elaboração, enfrentamento e tempo. Um psicólogo ajuda a suportar este processo, faz as perguntas e orientações corretas para que, no seu tempo, você reflita e mude.”
Éllen também aponta diferenças críticas no que diz respeito à proteção dos dados pessoais. “Como psicóloga, o sigilo é uma exigência legal e passível de punição caso descumprida. Quanto ao que é informado para a IA, sei que os dados são utilizados para treinos da própria ferramenta e não temos clareza do que é feito com essas informações. Portanto, não há garantias absolutas. Cabe ao senso crítico do usuário decidir o que deve informar ou não”.
É mais fácil conversar com IA do que com humanos?
Sobre a preferência por falar com a IA, a psicóloga observa fatores de conforto e praticidade. “Na psicoterapia não existe julgamento. O psicólogo tem o dever de ser imparcial e acolher as demandas do paciente. Mas existe um preconceito de que o profissional julga, o que faz muitas pessoas evitarem o contato”.
Além disso, a disponibilidade 24h da ferramenta e a linguagem acessível contribuem para essa escolha. “É tentador usar para diversos fins, mas não é a mesma coisa que um profissional. Costumo comparar com pesquisar sintomas de doença no Google, você não vai se tratar baseado naquilo sem consultar um profissional. Da mesma forma, não podemos acreditar nas respostas rápidas da IA como se fossem definitivas”.
Ela ainda destaca a importância das relações sociais. “Mesmo pós-pandemia, muitas pessoas vivem em isolamento e isso preocupa, porque a IA não substitui a profundidade do encontro humano, que traz risco, vínculo e autenticidade”, acrescenta.
IA e prevenção ao suicídio
Em referência ao Setembro Amarelo, Éllen explica que a IA pode oferecer algum suporte, mas com limitações claras. Cita que as IAs são treinadas para indicar tratamento profissional com psicólogo e psiquiatra, o que é necessário e importante, porém ser restrita à conversa, nunca irá captar nuances de comportamento que psicólogos, familiares e amigos percebem.
“Algumas pessoas nunca falaram sobre questões pessoais com ninguém, e a escrita é uma forma interessante de desabafo, como diários ou planners. O que me preocupa seria a falsa sensação de já ter resolvido o problema apenas por conversar brevemente com a IA, sem procurar um profissional. O risco é a pessoa se isolar ainda mais, acreditando que a conversa digital basta”, alerta.
Acrescenta que gosta da prática da escrita terapêutica como complemento da terapia, mas nunca como substituto. “Escrever ajuda a organizar pensamentos, elaborar questões e refletir sobre temas, mas sem a ajuda de um profissional, a chance desta escrita não ser terapêutica e sim incentivadora de comportamentos de risco é muito grande. É útil, mas não conduz sozinho à mudança. É preciso de um guia e perguntas diretivas, que só um profissional consegue fazer”, pontua.
Por isso, reafirma que a terapia só pode ser feita por psicólogos, conforme o próprio Conselho Federal de Psicologia. “O uso da IA pode ser ferramenta auxiliar, mas não substitui nem deve ser confundido com intervenção psicológica. Cursos e treinamentos estão sendo incentivados para orientar práticas seguras de uso da IA, sempre como aliada, nunca como única resposta. Costumo dizer aos meus pacientes que fazer terapia te ajuda a usar melhor a IA, pois você sabe exatamente o que pedir e tirar as melhores vantagens da ferramenta. A IA pode ajudar, mas precisa ter filtro sobre o que responde. Não substituirá a Psicologia; as pessoas têm uma demanda cada vez maior de contato humano saudável, refletido no aumento da procura por psicoterapia nos últimos anos. Cabe a sabedoria de unirmos a eficácia comprovada da psicoterapia com a IA como aliada, não substituta”, conclui.
Saúde
IA pode ajudar em algumas áreas, mas não substitui psicoterapia, diz especialista