Saúde

Estilo de vida pode influenciar em grande parte dos casos de câncer, alerta oncologista

Estilo de vida pode influenciar em grande parte dos casos de câncer, alerta oncologista

O Brasil deverá registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Embora os avanços da Medicina tenham ampliado as possibilidades de tratamento e aumentado as taxas de cura em diversos tipos da doença, especialistas reforçam que uma parcela significativa desses diagnósticos poderia ser evitada por meio da adoção de hábitos de vida mais saudáveis.
Estimativas científicas apontam que até 40% dos casos de câncer podem ser prevenidos, mas uma pesquisa nacional realizada pelas organizações Umane e Vital Strategies, com apoio do INCA, revelou que 27% dos brasileiros ainda não sabem que a doença pode ser evitada. O levantamento, realizado com mais de 6,5 mil pessoas em todo o país, também mostrou que muitos fatores de risco relacionados ao estilo de vida continuam sendo pouco conhecidos pela população.
Para o médico oncologista e cirurgião do Hospital São Lucas, Dr. Gustavo Canevari, compreender as causas da doença é um passo fundamental para mudar esse cenário. “O câncer é uma doença multifatorial. Existe, sim, uma parcela relacionada aos fatores genéticos, mas ela representa aproximadamente 10% dos casos. Os outros 90% estão ligados principalmente aos fatores externos, ou seja, ao estilo de vida e às exposições que acumulamos ao longo dos anos.”
Segundo o especialista, apesar de muitas pessoas associarem o câncer exclusivamente à hereditariedade, a maioria dos tumores está relacionada a comportamentos que podem ser modificados, como alimentação inadequada, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, sedentarismo, obesidade e exposição prolongada à radiação solar sem proteção.
Entre todos os exemplos de fatores externos, a exposição excessiva aos raios ultravioleta continua sendo um dos mais conhecidos e também um dos mais frequentes. “O câncer de pele talvez seja o exemplo mais claro de um tumor provocado por fatores ambientais. A exposição ao sol em horários inadequados, sem o uso de protetor solar e sem outras formas de proteção, provoca alterações nas células da pele que, ao longo do tempo, podem resultar no desenvolvimento de tumores”, afirma o médico.
O câncer de pele permanece como o tipo mais comum da doença no Brasil. Dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia mostram que ele representa aproximadamente 33% de todos os diagnósticos de câncer registrados no país. De acordo com o INCA, são cerca de 185 mil novos casos por ano, sendo aproximadamente 177 mil de câncer de pele não melanoma, que apresenta baixa mortalidade quando diagnosticado precocemente, e cerca de 8,4 mil casos anuais de melanoma, considerado o tipo mais agressivo por sua elevada capacidade de disseminação para outros órgãos.
Embora a incidência seja elevada, a boa notícia é que a maioria dos casos pode ser evitada com medidas relativamente simples, como evitar exposição ao sol entre 10h e 16h, utilizar protetor solar diariamente, roupas adequadas, chapéus e óculos com proteção ultravioleta.

Alimentação, álcool e cigarro também aumentam o risco
Se a relação entre sol e câncer de pele já é amplamente conhecida, outros fatores de risco ainda recebem pouca atenção da população. Entre eles está a alimentação baseada em produtos ultraprocessados, carnes processadas e pobre em fibras. “O uso de cigarros, outros tipos de fumo, bebidas alcoólicas e o consumo exagerado de alimentos ultraprocessados e carnes condimentadas, como salame, presunto e embutidos em geral, também estão associados ao desenvolvimento de vários tipos de câncer”, alerta Dr. Gustavo.
Segundo ele, esses hábitos costumam produzir efeitos cumulativos ao longo da vida. “Grande parte dos pacientes que recebem esse diagnóstico após os 60 anos reconhece que ficou décadas exposta a fatores cancerígenos. São escolhas e exposições que vão acontecendo durante muitos anos e que acabam contribuindo para o surgimento da doença, infelizmente”, alerta.
Entre os tumores diretamente relacionados aos hábitos alimentares está o câncer colorretal, também conhecido como câncer de intestino. Estimativas do Instituto Nacional do Câncer apontam cerca de 45.630 novos casos de câncer colorretal por ano no Brasil, tornando-o um dos tumores mais frequentes entre homens e mulheres.
A doença se desenvolve no intestino grosso (cólon) ou no reto e, na maioria das vezes, começa a partir de pequenos pólipos - lesões benignas que podem sofrer alterações e se transformar em tumores malignos ao longo dos anos.
Uma das principais vantagens desse tipo de câncer é justamente a possibilidade de prevenção. Como a evolução costuma ser lenta, a identificação e retirada dos pólipos durante exames de rastreamento reduzem significativamente o risco de desenvolvimento da doença. “O câncer de intestino é um dos exemplos em que conseguimos atuar antes mesmo do aparecimento do tumor. Quando um pólipo é encontrado durante uma colonoscopia, ele pode ser retirado de forma preventiva, evitando que se transforme em câncer futuramente”, explica o oncologista.
O especialista destaca que qualquer alteração persistente deve ser investigada o quanto antes por um profissional de saúde, pois o diagnóstico precoce continua sendo o principal fator para aumentar as chances de cura. “Os sinais normalmente aparecem em fases mais avançadas da doença. Sangue nas fezes, dor abdominal persistente, alteração do funcionamento do intestino, perda de peso sem explicação e sensação constante de cansaço são sintomas que nunca devem ser ignorados.”

Casos entre jovens acendem alerta para novos hábitos de risco
Embora os cânceres relacionados ao estilo de vida sejam historicamente mais frequentes em pessoas idosas, uma mudança no perfil dos pacientes tem chamado a atenção dos especialistas. Segundo Dr. Gustavo, cada vez mais pessoas jovens têm recebido o diagnóstico de diferentes tipos de câncer, realidade observada também na prática clínica.
“Há alguns anos percebemos um aumento no número de pacientes jovens chegando ao consultório com diagnóstico de câncer. Ainda existem estudos em andamento para entender exatamente o que está provocando essa mudança, mas existe uma forte suspeita de que o estilo de vida moderno tenha participação importante nesse cenário.”
O especialista cita como possíveis fatores o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, o sedentarismo, a obesidade e outras mudanças comportamentais observadas nas últimas décadas. 
Outro ponto de preocupação é o crescimento dos casos de câncer de pulmão, especialmente entre mulheres e pacientes mais jovens. “Antes, era muito mais raro encontrarmos determinados perfis de pacientes com câncer de pulmão. Hoje isso tem mudado, e um dos fatores que despertam preocupação é o uso dos cigarros eletrônicos,”, diz.
O vape ainda é visto por muitas pessoas como uma alternativa menos nociva ao cigarro convencional, percepção que não encontra respaldo nas evidências científicas. “Nossa equipe chegou a avaliar recentemente um paciente com uma lesão suspeita na boca. Durante o atendimento, ele relatou ser usuário de vape. Ainda aguardamos o resultado da biópsia, mas situações como essa reforçam a necessidade de alertar principalmente os jovens sobre os riscos associados ao cigarro eletrônico”, alerta.

Conhecer os sinais pode fazer diferença
Cada tipo de câncer apresenta manifestações próprias, mas alguns sintomas costumam aparecer em diferentes tipos da doença e merecem atenção. Perda de peso sem causa aparente, fadiga persistente, diminuição do apetite, fraqueza constante, sangramentos inexplicáveis, tosse prolongada, azia frequente e alterações persistentes no funcionamento do organismo são alguns dos sinais que justificam uma avaliação médica.
“O câncer não apresenta um único sintoma. Cada tumor tem características próprias. O importante é observar mudanças persistentes no corpo e procurar atendimento quando algo foge do normal.”
Apesar da evolução dos tratamentos oncológicos nos últimos anos, o sucesso terapêutico ainda depende diretamente da fase em que a doença é descoberta. “O tratamento do câncer evoluiu muito. Hoje temos cirurgias mais modernas, terapias-alvo, imunoterapia e medicamentos cada vez mais eficazes. Mas nenhum desses avanços substitui a importância do diagnóstico precoce.”
Segundo o oncologista, quando o tumor é identificado nas fases iniciais, as chances de cura são significativamente maiores. Em contrapartida, quando a doença já apresenta metástases ou está muito avançada, as possibilidades terapêuticas tornam-se mais limitadas.
“Não existe uma fórmula capaz de impedir completamente o aparecimento do câncer. Mas sabemos que manter uma alimentação equilibrada, controlar o peso, praticar atividade física regularmente, evitar o cigarro, reduzir o consumo de álcool, proteger-se da exposição solar e realizar acompanhamento médico periódico diminuem significativamente os riscos. Quanto mais cedo conseguimos identificar um câncer, maiores são as chances de cura. Cuidar da saúde antes que a doença apareça continua sendo a melhor decisão que qualquer pessoa pode tomar”, finaliza.

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