Campo Largo aparece na 7ª posição entre as cidades brasileiras com maior volume de exportações potencialmente afetadas pelas novas tarifas dos Estados Unidos, segundo levantamento do jornal Estadão. O valor em risco no município chega a US$ 184.115.555 conforme a tabela divulgada pelo jornal, e diante do cenário, a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) alerta que os impactos podem ultrapassar a redução das exportações e atingir a produção, o faturamento, os empregos e até novos investimentos das empresas instaladas no município.
Na prática, o alerta já é sentido na cidade, de acordo com o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Pedro Parolin Teixeira. Os efeitos da medida já são acompanhados pelo município e exigem atenção diante da importância das empresas exportadoras para a economia local. “Já convocamos uma reunião com os setores, justamente para medir os impactos na cidade e estamos em conversa com as instituições, como a Faciap, Fiep, Governo Estadual, para verificar o que podemos fazer. Campo Largo tem um setor muito variado, sobrevivemos bem porque temos indústria variada, comércio e serviços, então há arrecadação e indústria forte.”
A tarifa de 50% sobre produtos brasileiros passou a valer no último dia 06 de julho e, segundo o levantamento do Estadão, feito com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e da Amcham Brasil, 906 municípios brasileiros serão afetados pela medida. Piracicaba (SP) lidera a lista, com US$ 1,19 bilhão em exportações comprometidas, seguida por São Paulo (US$ 239,4 milhões) e Joinville (US$ 229,9 milhões). Campo Largo, na sétima posição, é o único município paranaense entre os dez mais impactados do país.
A contadora Bruna Kuster explica que o impacto dessas tarifas vai muito além da exportação: “Empresas locais que dependem, direta ou indiretamente, desse mercado podem sentir reflexos no faturamento, no fluxo de caixa, nos investimentos e até no planejamento tributário. Este é um momento em que informação e gestão fazem diferença. Antes de tomar decisões, é importante revisar contratos, custos, incentivos fiscais e estratégias comerciais para minimizar riscos e identificar oportunidades.”
Fiep alerta para reflexos sobre empregos e investimentos
O cenário em Campo Largo reflete uma dificuldade que atinge toda a cadeia produtiva paranaense ligada às exportações para os Estados Unidos. Segundo o superintendente da Fiep, João Arthur Mohr, em entrevista à Folha de Campo Largo, não há uma estimativa exata sobre os prejuízos para a economia do município, mas a entidade demonstra preocupação com a perda de competitividade das empresas que dependem do mercado norte-americano. “Esse aumento de custos causado pelas tarifas impostas a indústrias que exportam para os Estados Unidos pode comprometer a competitividade dessas empresas no mercado norte-americano, com reflexos sobre volume de produção, faturamento e, consequentemente, sobre os empregos gerados por elas.”
Além dos efeitos sobre a atividade industrial e o mercado de trabalho, a Fiep também avalia que a manutenção das tarifas por um período prolongado pode afetar decisões futuras de negócios. “Existe uma preocupação com a possibilidade de adiamento ou cancelamento de novos investimentos e, em um cenário em que as tarifas permaneçam por um período mais prolongado, até de deslocamento de investimentos para outros países que tenham condições comerciais mais favoráveis”, explica o superintendente.
Em Campo Largo, os setores de máquinas e equipamentos e de revestimentos cerâmicos estão entre os mais expostos às novas medidas, devido à presença de empresas que exportam para os Estados Unidos. Conforme a Fiep, as máquinas e equipamentos sofrem incidência da tarifa prevista na Seção 232, enquanto os revestimentos cerâmicos acumulam diferentes sobretaxas, tornando as exportações significativamente mais caras.
“As empresas exportadoras desses setores passam a enfrentar uma perda imediata de competitividade em função da elevação das tarifas. Na medida em que contratos forem renegociados ou deixarem de ser renovados, os efeitos podem se refletir na redução de pedidos, da produção e do nível de investimentos”, afirma Mohr.
Busca por alternativas
Para tentar reduzir os impactos das tarifas, a Fiep afirma atuar em diferentes frentes. Uma delas é o diálogo com clientes e parceiros comerciais nos Estados Unidos, buscando apoio para a revisão das tarifas ou para a ampliação da lista de produtos isentos. “Essa estratégia já contribuiu para que alguns produtos brasileiros obtivessem isenção, como tilápia, mel, café instantâneo, couro e determinados pisos de madeira”, explica Mohr.
A entidade também mantém interlocução com os governos federal e estadual para discutir mecanismos de apoio às empresas afetadas, incluindo medidas de suporte financeiro semelhantes às adotadas durante a pandemia. Paralelamente, a Federação trabalha com o setor industrial na busca por alternativas que preservem a competitividade das empresas e os empregos no Paraná.
Outra estratégia defendida pela Fiep é a diversificação dos mercados consumidores. Para a entidade, a abertura de novos destinos para os produtos paranaenses é importante para reduzir a dependência de um único mercado, mas os resultados não devem aparecer imediatamente. “A diversificação de mercados é um caminho importante e faz parte das estratégias defendidas pela Fiep. No entanto, é preciso reconhecer que essa transição não ocorre de forma imediata. Por isso, embora a prospecção de novos compradores e mercados seja fundamental, seus resultados tendem a ocorrer no médio prazo”, afirma o superintendente.
Segundo Mohr, neste momento, é necessário combinar negociação comercial, apoio governamental e estratégias de diversificação para fortalecer a capacidade de reação das empresas diante das mudanças no cenário internacional.
Afinal, o que é o “tarifaço”?
Para entender por que uma decisão tomada em Washington chega a afetar uma fábrica em Campo Largo, vale explicar o que está por trás da palavra “tarifaço”. Quando o governo dos Estados Unidos aumenta a tarifa sobre produtos de outro país, ele está, na prática, elevando o imposto de importação cobrado quando aquele produto entra em território americano. Isso encarece a mercadoria brasileira no mercado norte-americano, tornando-a menos competitiva frente a concorrentes de outros países ou até frente a produtos fabricados nos próprios Estados Unidos.
No caso do Brasil, o governo americano anunciou uma tarifa “nominal” de 25% sobre grande parte dos produtos. Porém, existe uma lista extensa de exceções, com milhares de itens isentos ou com alíquota menor. Por isso, na prática, a tarifa “efetiva”, ou seja, o que de fato costuma ser cobrado em média considerando todas as exceções, fica abaixo disso. Ainda assim, o Brasil teve um dos maiores saltos de tarifas entre os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos desde o início do atual governo americano.
A justificativa oficial de Washington envolve acusações de práticas comerciais consideradas injustas pelo governo norte-americano, além de questões relacionadas ao sistema de pagamentos Pix, decisões judiciais sobre remoção de conteúdo em redes sociais, propriedade intelectual e desmatamento. O governo brasileiro rejeita as acusações e sinaliza que pode responder com medidas de reciprocidade.
Na prática, o efeito não é uniforme entre os setores. Quem vende produtos mais padronizados, como grãos e minérios, consegue redirecionar as vendas para outros mercados com mais facilidade. Já indústrias especializadas, que fabricam maquinário, peças e itens sob medida, caso de parte do que é produzido em Campo Largo, têm mais dificuldade para encontrar novos compradores no mundo, o que tende a ampliar o impacto local.