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Tristeza frequente e autolesão atingem cerca de 30% dos adolescentes e especialista orienta atenção aos sinais

Tristeza frequente e autolesão atingem cerca de 30% dos adolescentes e especialista orienta atenção aos sinais

Três em cada dez estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos afirmam se sentir tristes sempre ou na maioria das vezes e uma proporção semelhante à dos que relatam já ter tido vontade de se machucar de propósito. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base em entrevistas realizadas em 2024 com mais de 118 mil adolescentes de escolas públicas e privadas em todo o país. O levantamento ainda revela que 42,9% dos alunos se dizem frequentemente irritados ou nervosos e 18,5% relatam pensar, com frequência, que “a vida não vale a pena ser vivida”.
Para o psicólogo clínico e neuropsicopedagogo Kaio Juliano Suonski Barbosa, o primeiro ponto de atenção é que o sofrimento emocional nem sempre é evidente. “Nem sempre o sofrimento aparece de forma clara. Ele pode surgir em mudanças no sono, na alimentação, na perda de interesse por atividades que antes davam prazer, no isolamento ou até na queda do rendimento escolar. Falas indiretas também merecem cuidado, como expressões de desânimo ou sensação de inutilidade.”
A adolescência é, por natureza, um período de intensas transformações emocionais. Oscilações de humor, necessidade de privacidade e certa irritabilidade são consideradas esperadas. No entanto, o especialista ressalta que é preciso observar a intensidade e a duração desses comportamentos. “O que diferencia o esperado de um sinal de alerta é quando esse sofrimento se torna persistente, interfere na rotina e vem acompanhado de sentimentos como desesperança ou culpa excessiva. Os pais e responsáveis devem fazer uma avaliação prática: ‘Isso está passando ou está se aprofundando?’ Se está se aprofundando, é hora de olhar com mais cuidado”, orienta.

Fatores de risco
A pesquisa também evidencia aspectos do contexto social e familiar desses adolescentes. Cerca de 26,1% afirmaram sentir frequentemente que “ninguém se preocupa” com eles, enquanto pouco mais de um terço acredita que os pais ou responsáveis não compreendem seus problemas. Além disso, 20% relataram ter sofrido agressão física por responsáveis ao menos uma vez no período de um ano.
De acordo com Kaio, esses elementos podem aumentar a vulnerabilidade emocional. “Dificuldades na regulação emocional, histórico de violência, bullying, rejeição social e vínculos inseguros são fatores que, quando acumulados, elevam o risco de sofrimento psíquico. Entretanto, a presença de um adulto emocionalmente disponível pode funcionar como fator de proteção determinante”, pontua.
Entre os padrões observados em contextos de sofrimento emocional estão a invalidação dos sentimentos, excesso de cobrança e ausência de diálogo. Frases que minimizam a dor, segundo o especialista, podem agravar o quadro. “Dizer que é ‘drama’ ou ‘falta do que fazer’ invalida a experiência do adolescente e faz com que ele se feche ainda mais”, alerta. Em contrapartida, ambientes onde há escuta, respeito e acolhimento funcionam como importantes fatores de proteção.

Autolesão pode não ser o desejo de morte
Entre os dados que mais chamam atenção está o percentual de adolescentes que já pensaram em se machucar intencionalmente. O psicólogo esclarece que esse comportamento nem sempre está associado à intenção de morrer, mas segundo ele, trata-se de uma estratégia disfuncional de regulação emocional, que não resolve o problema e pode agravar o quadro. “A autolesão, na maioria das vezes, é uma tentativa de lidar com uma dor emocional intensa. Para alguns adolescentes, ela gera um alívio momentâneo, porque desloca a dor psíquica para uma dor física”, explica. 
Quando o assunto é atentar contra a própria vida, no entanto, o levantamento aponta ainda um maior índice de tentativas entre meninas, mas isso não significa necessariamente maior sofrimento. “Os meninos, em geral, são socializados para não demonstrar vulnerabilidade. Por isso, podem expressar o sofrimento de outras formas, como agressividade, impulsividade ou silêncio”, afirma Kaio.
Ele acrescenta que, enquanto meninas tendem a verbalizar mais seus sentimentos, meninos frequentemente apresentam dificuldade em nomear emoções, o que exige atenção diferenciada. “São tendências, não regras. Cada adolescente é único”, ressalta.

Como prevenir e buscar ajuda
Para o psicólogo, a prevenção não depende de ações isoladas, mas de uma construção diária. “O mais importante é se aproximar sem julgamento, escutar com atenção e validar o que o adolescente sente. Frases simples como ‘eu estou aqui com você’ fazem diferença”, orienta.
Ele reforça que não é necessário esperar o agravamento da situação para buscar ajuda profissional. “Procurar um psicólogo nos primeiros sinais já pode mudar o curso da situação”, afirma.
Por fim, destaca que famílias, escolas, a sociedade e o governo precisam investir mais em educação emocional e na criação de espaços seguros de escuta. “Um adolescente que se sente visto, ouvido e acolhido tem mais recursos para lidar com o sofrimento antes que ele se transforme em crise”, conclui.
Apesar da relevância do tema, menos da metade dos estudantes brasileiros frequenta escolas que oferecem algum tipo de suporte psicológico, um índice de 58,2% na rede privada e 45,8% na pública. A presença de profissionais de saúde mental nas instituições é ainda mais limitada, alcançando apenas 34,1% dos alunos.
Diante desse cenário, a orientação é buscar apoio na rede disponível. O Ministério da Saúde recomenda que adolescentes e responsáveis procurem familiares, educadores e serviços de saúde. Entre as opções estão os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Unidades Básicas de Saúde, além de atendimentos de urgência como UPA, SAMU (192) e hospitais. O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, além de chat e outros canais de atendimento 24 horas.

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