Domingo às 11 de Janeiro de 2026 às 05:29:41
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Crocheteiras de Campo Largo preparam árvore de Natal gigante para decorar a Praça Getúlio Vargas

Crocheteiras de Campo Largo preparam árvore de Natal gigante para decorar a Praça Getúlio Vargas

A Praça Getúlio Vargas, no Centro de Campo Largo, ganhará uma nova atração, feita à mão e com muito carinho, neste Natal. O grupo de mulheres que transformou o crochê em encontro, acolhimento e solidariedade, Crocheteiras Campo Largo, preparou crochês que enfeitarão uma árvore de Natal de quatro metros inteiramente confeccionada à mão, peça que promete se tornar símbolo do Natal da cidade neste ano. Montada a partir de centenas de squares, que são pequenos quadrados de crochê, a árvore deve ser instalada ainda nesta sexta-feira (28), em tempo para a inauguração do Natal de Campo Largo.
A iniciativa é do Grupo Crocheteiras Campo Largo, que nasceu de forma despretensiosa e hoje se tornou um dos maiores movimentos artesanais e comunitários da cidade. Com tamanha união e criatividade, o grupo decidiu preparar um presente especial para a cidade neste fim de ano, a partir de barbantes doados. “É um sonho delas. Em grandes cidades isso já existe, e agora Campo Largo também vai ter. Elas estão empolgadíssimas para ver o resultado”, diz Beatriz, uma das coordenadoras do Crocheteiras Campo Largo.
As crocheteiras têm tradição em marcar datas comemorativas com grandes ações, e já participaram de outros eventos especiais na cidade, como produziram uma bandeira de crochê para o Desfile de 07 de Setembro, além de 600 chaveiros distribuídos no Dia das Mães, ainda no mês de maio, na região central de Campo Largo. Porém, as coordenadoras comentam que a árvore é o projeto visual mais desafiador feito por elas até hoje. “É a nossa surpresa de Natal para Campo Largo. É algo feito com carinho, ponto a ponto, por muitas mãos”, celebra Anielli.

Um encontro que virou movimento
O projeto teve início pouco antes das enchentes no Rio Grande do Sul, quando a professora de crochê Anielli e sua aluna Beatriz decidiram reunir algumas amigas para crochetar juntas em um café da cidade. “Começamos com cinco amigas, sem imaginar o tamanho que isso ia tomar”, lembra Beatriz. No segundo encontro, já eram mais de 20 mulheres e no terceiro, mais de 50.
Com a tragédia climática no Rio Grande do Sul, o grupo rapidamente transformou o passatempo em força-tarefa. “Teve gente que sentou sem saber fazer nem correntinha, e aprendeu ali, com outra do lado. A união foi tão grande que em pouco tempo precisávamos de dois caminhões para levar as doações”, conta Anielli.
O resultado da mobilização impressiona, já que foram mais de 2 mil peças, entre mantas, toucas, roupas de bebê e cachecóis, que seguiram para cidades atingidas, especialmente Canoas e foram entregues pessoalmente por uma voluntária que tinha conexão com o grupo. 
Diante da força do grupo e do impacto das entregas, o projeto não parou. Com o fim da campanha para o Rio Grande do Sul, as crocheteiras passaram a produzir principalmente para dois destinos, tanto para o Hospital do Rocio, onde pacientes em tratamento de quimioterapia recebem mantas, gorros e luvas e também para o Hospital Infantil Waldemar Monastier, que recebe roupas de bebê feitas com lã antialérgica. Desde então, já são mais de quatro mil peças produzidas desde o início do projeto.
A entrega das mantas nos hospitais costuma emocionar tanto quem recebe quanto quem doa. “Quando a gente chega com um presente, o coração se abre. É indescritível, pois muitos pacientes passam horas sentados, vindos de longe, sem casacos ou cobertas. Teve gente que chorou só de receber uma manta com a mensagem ‘Feito à mão para você’ ”, relembra Beatriz.
Porém, a demanda é constante, visto que só no setor de quimioterapia do Rocio, por exemplo, são cerca de 60 pacientes por dia, e os itens doados tornam-se pertence deles, não são reutilizados pelo hospital, o que faz com que haja uma necessidade frequente de lãs por parte do projeto. 

A luta por lã e a força da comunidade feminina
Manter o projeto exige uma quantidade surpreendente de matéria-prima, que pode ultrapassar facilmente os 300 novelos por mês. As coordenadoras relatam que o principal desafio hoje é conseguir lã suficiente para atender a todos os hospitais e ainda manter as mulheres em atividade. “A lã é como se fosse o combustível delas”, brinca Anielli, que segue explicando que o grupo sustenta o projeto com rifas, doações espontâneas e a parceria de comércio local.
Atualmente, são cerca de 120 mulheres participando ativamente, de iniciantes a crocheteiras experientes. O encontro, segundo as organizadoras, vai muito além da atividade manual, pois “não é terapia, mas é terapêutico”, como repetem as coordenadoras.

Histórias de dentro do grupo
Norma, moradora de Campo Largo há oito anos, encontrou no grupo uma forma de se conectar com a cidade. “Você vai ‘crochetando’ essa amizade. É gostoso demais. A gente trabalha bastante em casa, mas vem mais é pra se ver. Aqui você troca ideia, aprende um ponto novo, compartilha. É muito diferente do que crochetar sozinha”, conta ela que, apesar de fazer crochê desde pequena, diz que foi no grupo que realmente pegou gosto por essa arte.
Uma das histórias mais marcantes do projeto é a da professora aposentada Maria Madalena Miranda Jetikoski, que chegou ao grupo vivendo o luto pela perda recente do filho para o câncer. Ela conta que foi indicada ao projeto pela dona de uma loja de armarinhos e que o encontro foi decisivo. “Eu cheguei aqui para ‘crochetar’ a minha dor. Fui acolhida, abraçada. E quando soube que eram mantinhas para pacientes de quimioterapia, me emocionei demais. Meu filho fez três anos de quimioterapia. Eu via muita gente com frio nas perninhas.”
Para ela, o grupo se tornou força espiritual e mental. “Nas tuas mãos, as agulhas se movendo; no teu coração, um alívio. Aqui eu recebo carinho, amor, e encontro consolo. É uma obra linda, uma caridade ao irmão que sofre”, descreve.

Como participar ou doar
Esta terça-feira (25) foi o último encontro de 2025 do grupo, que deve retornar no início de 2026 às atividades. Porém, mulheres interessadas em participar ou quem quiser doar novelos podem entrar em contato pelo Instagram: @crocheteira_campolargo. Também é possível entregar lã ou peças prontas diretamente na loja Center Panos, no Centro de Campo Largo, que é parceira do grupo.