Mais uma vez, neste domingo (02), milhares de pessoas reservarão um tempo para refletir e trazer à memória lembranças de quem já faleceu. Mas há um grupo de pessoas, em grande parte mulheres, que sofre em silêncio: as mães que perderam seus bebês antes mesmo de poder pegá-los no colo.
Segundo informações publicadas pelo g1, em 2024 o Brasil registrou 24.237 óbitos fetais e 20.007 óbitos de bebês com até 28 dias de vida — milhares de famílias que choram por momentos que não puderam vivenciar ao lado de pequenos tão desejados.
A Folha conversou com Mirella Carletto Silva, psicóloga clínica, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia de Perdas e Lutos e Neuropsicopedagogia (CRP 08/22278), que explicou que o luto gestacional costuma ser invisibilizado por várias razões. “Entre elas estão o viés cultural — a gestação só é validada socialmente quando se transforma em um bebê vivo. Há tabus em torno da morte perinatal e profissionais e redes sociais muitas vezes minimizam perdas precoces por desconhecimento. A sociedade tem regras implícitas sobre o que é ‘legítimo’ para chorar, e isso gera o que a literatura chama de luto não reconhecido. A invisibilidade amplia a sensação de solidão, aumenta o risco de culpa internalizada e pode favorecer o desenvolvimento de luto complicado, depressão ou sintomas traumáticos, se a dor não for acolhida.”
Para quem passa por uma situação tão complexa e difícil, Mirella ressalta que é essencial um acolhimento que valide a perda. Atitudes como nomear o bebê ou a gestação podem permitir que a mãe externalize a dor. “Além disso, a terapia cognitivo-comportamental focada em luto, a terapia baseada em exposição para memórias traumáticas e o EMDR, quando há sintomas de TEPT (Transtorno do Estresse Pós-Traumático), podem ser indicados conforme avaliação do paciente. Outros recursos são os rituais simbólicos, como sepultamento simbólico, cerimônias íntimas, plantar uma árvore, escrever cartas ao bebê, criar um memorial digital ou realizar um pequeno ritual no Dia de Finados — estratégias que dão lugar ao luto e legitimam a perda. Grupos de apoio, presenciais ou online, também reduzem o isolamento e normalizam as emoções”, pontua.
Casal enlutado
O casal também atravessa o luto, com o pai frequentemente vivendo o processo de forma menos expressiva. “Isso pode acontecer por pressões de ‘proteger’ a mãe ou por estilos diferentes de enfrentamento. Os companheiros podem sentir impotência, culpa, desejo de consertar a situação ou evitar a dor para manter a rotina”, explica.
Para fortalecer o relacionamento durante esse momento delicado, Mirella recomenda estratégias como comunicação clara sobre as necessidades de cada um, identificar quem precisa falar e quem precisa de silêncio; criar rituais compartilhados — nomear o bebê ou criar um memorial conjunto — e buscar espaços terapêuticos, como psicoterapia de casal ou apoio individual, especialmente quando há dificuldade em sincronizar o luto.
“Também é importante estabelecer regras de cuidado mútuo, checar um ao outro, combinar momentos para expressar a dor e buscar apoio externo, sem esperar que o parceiro ‘conserte’ a situação. É essencial que ambos tenham suporte adicional, como amigos ou grupos de apoio, além do relacionamento conjugal”, completa.
Apoio de familiares e amigos
A psicóloga destaca que essa também é uma perda que necessita de apoio e amparo. Por isso, é importante saber como agir quando alguém da família ou do círculo social enfrenta essa situação.
“Princípios simples como presença, escuta ativa e uma linguagem que valida — como ‘sinto muito pela sua perda’ ou ‘estou aqui para o que precisar’ — são bem-vindos. Também é importante oferecer ajuda prática, como preparar uma refeição, cuidar de outros filhos ou acompanhar em consultas e rituais. Permita que a pessoa fale sobre o bebê e lembre datas significativas que reforçam o vínculo e o reconhecimento da perda. As perguntas empáticas demonstram sensibilidade e respeito”, aconselha.
Por outro lado, há atitudes que devem ser evitadas, como frases que minimizam a dor (“pelo menos você pode tentar de novo”), tentativas de silenciar o sofrimento, comparações ou pressa em “seguir em frente”.
“Comentários bem-intencionados, mas sem base, como ‘talvez era pra ser assim’, também podem reforçar a culpa e dificultar o luto. A melhor postura é perguntar, escutar e validar — sem tentar consertar a dor, apenas estar presente com empatia e respeito”, orienta.
Mirella reforça que o luto gestacional tem características específicas: envolve a perda de um futuro esperado, de projetos e identidades parentais, e a ausência de experiências concretas com o bebê em vida, o que dificulta a validação social da perda. “A falta de rituais formais, como velório, nome ou enterro, intensifica o isolamento emocional. Embora haja semelhanças com o luto por filhos mais velhos — como dor, vazio e raiva —, o vínculo projetado difere do vínculo vivido, e a resposta da sociedade tende a ser menos acolhedora. Por isso, o luto gestacional é frequentemente mais solitário e sujeito à falta de reconhecimento social da perda”, explica.
Mensagem às famílias que passaram pela perda
“Você tem todo o direito de sentir, chorar, lembrar e dar nome àquilo que foi perdido. Sua dor é real e não precisa ser medida por comparações. Permita-se pedir ajuda, aceitar o abraço de quem pode oferecer apoio e dar tempo ao seu coração para organizar essa nova história, sem cobranças. Se sentir que a dor está muito intensa, procurar um profissional que compreenda o luto perinatal é um ato de coragem e cuidado. E, por fim: não é necessário ‘dar conta’ de tudo agora. Estar viva com a saudade já é um trabalho significativo e importante”, finaliza.
Sugestões de rituais e homenagens
simbólicas para este Dia de Finados
Acender uma vela com o nome do bebê
Visitar um lugar que tenha significado especial
Criar um pequeno altar em casa com fotos, objetos ou lembranças
Escrever uma carta e queimá-la ou enterrá-la simbolicamente
Plantar algo vivo como símbolo de continuidade e amor
Realizar uma cerimônia íntima com pessoas próximas.