Sabado às 15 de Junho de 2024 às 08:18:34
Geral

Voluntários campo-larguenses dividem experiências em missões no Rio Grande do Sul

A maior catástrofe já registrada no Sul do Brasil, que aconteceu no início de maio no Rio Grande do Sul, deixou marcas profundas na população e nos voluntários que estiveram nos locais para auxiliar.

Voluntários campo-larguenses dividem experiências em missões no Rio Grande do Sul

A maior catástrofe já registrada no Sul do Brasil, que aconteceu no início de maio no Rio Grande do Sul, deixou marcas profundas na população e nos voluntários que estiveram nos locais para auxiliar. Segundo boletim da Defesa Civil gaúcha, nesta quarta-feira (22), já eram 161 pessoas mortas em decorrência das enchentes, que impactaram dois milhões de pessoas. Até o fechamento desta edição – quinta-feira, 23 - haviam 85 desaparecidos e mais de 650 mil pessoas fora de suas casas. De 497 municípios, 467 foram impactados pelas enchentes.

A Folha conversou com campo-larguenses que foram até o Rio Grande do Sul para auxiliar em resgates e na logística de distribuição de doações, que explicaram mais sobre o cenário encontrado.

Jonas Dalcomuni
O empresário Jonas Dalcomuni relatou que ficou impactado com as cenas que via na internet já no início da catástrofe. O lado altruísta falou mais forte e imediatamente iniciou campanhas de arrecadação de doações diversas para a população da região. “Lembro que cheguei para o meu pai e falei que precisava da caminhonete e do barco, que eu iria descer para o Rio Grande. Ele falou ‘então eu vou junto’ e partimos. Mais um amigo meu de Santa Catarina foi conosco e viajamos para São Leopoldo, onde eu já tinha um amigo trabalhando como voluntário. Lá conheci o trabalho da capitã Bibiana, da Brigada Militar, que estava bastante organizado, mas o impacto foi forte, uma mistura de sentimentos e o desejo de ajudar as pessoas falando ainda mais alto.”

Ele relembra que a tristeza e o desespero pairavam no ar. Já no primeiro dia acabou “indo para a água”, auxiliar nos resgates. Precisou, pela primeira vez em sua vida, utilizar colete balístico, como forma de proteção, pois havia risco de tentativa de assalto. Um policial acompanhou a equipe em todo o percurso e cerca de 70% da cidade estava embaixo da água. “Sem energia elétrica, sem água, sem internet, em meio a uma água com odor muito forte e frio. Era assim que estávamos todos, população e voluntários. Vimos abrigos com cinco mil pessoas, todas misturadas. Foram cenas muito fortes, pois tinha gente de todo o tipo, que estavam doentes, as vezes em abstinência, desesperadas porque se desencontraram das famílias. É algo muito marcante”, ressalta.

Lembra que muitas vezes as pessoas revezavam os colchões para dormir, porque não tinha o suficiente para todas. Também precisaram encontrar meios de comprar roupas íntimas e roupas plus size para os atingidos pelas chuvas, inclusive viu pessoas enroladas em lençóis pois não tinham roupas. “Lembro que fazíamos uma grande corrente na hora de descarregar os caminhões. Em um momento eu fiquei atuando na parte logística e a capitã montou uma estratégia bem interessante de controle, anotando quem tinha pego doações, o que pegou e a quantidade. Havia uma hierarquia, fomos organizando conforme a necessidade. Distribuíamos para igrejas – de todas as religiões – que se tornavam centros para atender os bairros e a comunidade”, diz.

Porém, a angústia começou a afetar os voluntários e Jonas viu que precisava agir no sentido de oferecer a eles ânimo e esperança. “Sou músico, então peguei um violão emprestado e cantávamos pela manhã e à tarde. Eu faço palestras motivacionais, então usei esse dom para ajudar quem estava ajudando. Conversamos muito com eles, oramos e buscamos levar mais motivação, aliviando as tensões. Formamos um grupo forte e conversamos muito pelo WhatsApp. Inclusive eles pedem para que eu volte para lá”, conta.

Sobre o que aprendeu, Jonas destaca o amor e dedicação às pessoas, sobre a gratidão em poder ajudar a quem precisa e a importância da união. “Se não fosse a união e a mobilização das pessoas de vários estados e cidades, a solidariedade do brasileiro, muito mais pessoas teriam morrido. No final, é o povo pelo povo. É muito lindo ver as pessoas da minha cidade, Campo Largo, se mobilizando para ajudar. Que essa corrente solidária nunca se acabe”, finaliza.

Mariane Mazzon
Mariane Mazzon, do Instituto SOS 4 Patas, também atuou como voluntária, junto de um grupo de 15 pessoas, composto por veterinários, manutenção e logística. “Já no que eu vi essa tragédia acontecendo, iniciei a mobilização, visando atender os animais daquela região. Iniciamos uma campanha e conseguimos enviar seis barcos, quatro adquiridos por meio da campanha e mais dois pagos pelo humorista Windersson Nunes. Quando fomos para lá a primeira vez, levamos mais um barco também”, descreve.

Ela conta que haviam muitos animais doentes e dentro das residências alagadas. “Diariamente faziam filas de tutores para resgatar os animais que estavam nas áreas de enchente. Cada um contava uma história diferente do porquê deixou o bichinho para trás, alguns não estavam na casa quando foi alagada, outros disseram que o barco do resgate priorizava pessoas, entre outras situações. Sabemos que muitos tutores não se importavam, infelizmente, com esses animais, que foram abandonados em uma situação tão complexa e que expõe eles a risco de morte”, pontua.

Contou também dos abrigos para animais, que recebiam muitos animais doentes, e grande parte ficavam amarrados, apenas com papelão, embora o frio estivesse bem forte. “Não havia estrutura e estava muito complicado. Cerca de 90% eram cães. Havia abrigos para gatos, mas eles acabam fugindo com maior facilidade, então era mais difícil de controlar. Tínhamos que separar brigas, havia animais no cio e isso complicava ainda mais o controle. Trouxemos alguns animais conosco para tratamento, mas teremos que fazer uma grande mobilização para adoção no futuro, pois muitos desses animais não têm para onde voltar”, diz.

Sobre orientações, Mariane pede para que quem for doar ração, doe de melhor qualidade. Rações com mais qualidade saciam mais os animais e eles acabam até evacuando menos, o que contribui para a limpeza do local. Nesta quinta-feira (23), voluntários do SOS 4 Patas estavam indo para o Rio Grande do Sul novamente, auxiliar aqueles que precisam.