Os servidores técnico-administrativos em educação (TAEs) do Instituto Federal do Paraná (IFPR) seguem em greve e intensificaram, nesta semana, as mobilizações pela implementação integral do acordo firmado com o Governo Federal após a paralisação nacional de 2024. Na segunda-feira (06), representantes de sindicatos do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul participaram de um ato em frente à Superintendência Regional do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), em Curitiba, cobrando a retomada das negociações e o cumprimento dos compromissos assumidos pela União.
A greve, iniciada em fevereiro, afeta instituições federais de ensino de todo o país. Entre as principais reivindicações estão o cumprimento dos itens pendentes do acordo de 2024, a valorização da carreira dos técnicos-administrativos, melhores condições de trabalho e a ampliação do diálogo entre o Ministério da Gestão e as entidades representativas da categoria.
A Folha de Campo Largo conversou com Guilherme Basso dos Reis, integrante da direção do Sindicato dos Trabalhadores em Educação das Instituições Federais de Ensino Superior no Estado do Paraná (SINDIEDUTEC), que explicou os motivos da mobilização e o atual cenário das negociações.
Embora a paralisação atual tenha começado há quatro meses, Guilherme explica que suas origens remontam à greve nacional realizada em 2024. Na ocasião, docentes e técnicos-administrativos permaneceram aproximadamente 90 dias paralisados até a assinatura de um termo de acordo com o Governo Federal. Segundo ele, apesar de diversas medidas terem sido implementadas desde então, parte significativa dos compromissos permanece sem solução. “A greve de 2026 remete diretamente à greve de 2024. Naquele momento foi firmado um acordo com o governo, mas 17 pontos não foram cumpridos ou foram cumpridos apenas parcialmente. É justamente isso que estamos cobrando agora.”
Progressão continua com restrições
Um dos exemplos citados por Guilherme é a regulamentação da Lei dos Saberes e Competências, criada para ampliar as possibilidades de progressão funcional dos servidores. Anteriormente, a ascensão na carreira estava vinculada quase exclusivamente à obtenção de títulos acadêmicos, como especializações, mestrado e doutorado. Com a nova legislação, outras experiências profissionais passaram a ser reconhecidas, como participação em projetos de pesquisa, realização de cursos, produção técnica e registro de patentes.
Entretanto, segundo o dirigente sindical, a forma como a lei foi regulamentada acabou restringindo o acesso de parte dos servidores ao benefício. “Hoje existem várias limitações que fazem com que muitos trabalhadores não consigam utilizar esses saberes e competências para a progressão na carreira. Na prática, a regulamentação ficou muito aquém do que foi negociado”, pontua.
Outro ponto criticado é que parte das medidas conquistadas beneficia apenas os servidores em atividade. “Há direitos que ficaram restritos aos trabalhadores da ativa, deixando de fora os aposentados, que também fazem parte da categoria e contribuíram durante a vida profissional”, retrata.
Governo avança “a conta-gotas”
Questionado sobre a resposta apresentada pelo Governo Federal desde o início da paralisação, Guilherme afirma que alguns assuntos seguem sendo discutidos, principalmente aqueles que não envolvem impacto financeiro direto. No entanto, ele considera que o andamento das negociações é lento e sem garantias concretas. “Alguns temas continuam sendo debatidos, mas sempre com a justificativa de que serão encaminhados para grupos de estudo que vão avaliar a viabilidade da implementação. Não existe nenhuma garantia.”
Atualmente, cerca de mil técnicos-administrativos trabalham nos mais de 25 campi do Instituto Federal do Paraná espalhados pelo estado. O sindicato afirma que não há um levantamento consolidado sobre o número de grevistas, já que a adesão varia conforme cada unidade. Enquanto alguns campi registram cerca de 90% dos servidores técnico-administrativos paralisados, outros apresentam índices bastante inferiores.
Serviços essenciais continuam funcionando
Mesmo com a paralisação, algumas atividades continuam sendo executadas. Segundo Guilherme, o próprio comando de greve mantém um Comitê de Ética responsável por definir quais serviços são considerados essenciais e precisam ser mantidos durante o movimento.
Ainda assim, ele afirma que a greve evidencia a importância do trabalho desempenhado pelos técnicos-administrativos nas instituições federais. “Os TAEs atuam em praticamente todas as áreas do instituto. São eles que organizam contratos, processos administrativos, dão suporte às atividades acadêmicas, atendem estudantes e acompanham demandas relacionadas à inclusão e à permanência dos alunos”, diz.
Ele explica que muitos desses trabalhos acontecem nos bastidores e acabam passando despercebidos pela comunidade acadêmica. “Quando esses profissionais deixam de atuar, fica evidente o quanto o funcionamento dos campi depende desse trabalho”, acrescenta.
Demandas específicas do Paraná
Além da mobilização nacional, os servidores paranaenses entregaram uma pauta própria à Reitoria do IFPR na segunda-feira (06). Entre as reivindicações apresentadas estão a necessidade de ampliação do quadro de servidores diante do volume de trabalho existente nos setores, ações voltadas à saúde dos trabalhadores, implantação de cuidadotecas - espaços destinados ao acolhimento de filhos de servidores e estudantes - e medidas mais efetivas de enfrentamento ao assédio no ambiente de trabalho.
Segundo Guilherme, essas demandas refletem desafios vivenciados diariamente pelos servidores do estado e complementam a pauta nacional. Para o dirigente do SINDIEDUTEC, o movimento deste ano representa um momento em que os técnicos-administrativos buscam dar protagonismo às próprias reivindicações. “Esta greve tem a voz e a cara dos TAEs. São reivindicações específicas da nossa categoria, que durante muito tempo ficaram em segundo plano. O que queremos é que essas demandas sejam efetivamente ouvidas e cumpridas”, conclui.