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Capela do Tamanduá guarda quase 300 anos de história e preserva parte das origens do Paraná

Capela do Tamanduá guarda quase 300 anos de história e preserva parte das origens do Paraná

Às margens da história do Paraná, em uma área rural de Balsa Nova, a Capela Nossa Senhora da Conceição do Tamanduá permanece como um dos mais antigos testemunhos da colonização do Estado. Prestes a completar 300 anos em 2027, o templo reúne histórias que atravessam gerações e ajudam a explicar o desenvolvimento da região, desde o período do tropeirismo até as primeiras comunidades religiosas do Paraná.
Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2024, a capela é considerada um patrimônio nacional e continua sendo referência para moradores que preservam suas tradições. Enquanto a comunidade acompanha o processo de preservação da área da Capela Nossa Senhora da Conceição do Tamanduá, em Balsa Nova, moradores e representantes da Igreja também pensam sobre o futuro de um dos patrimônios religiosos mais importantes do Paraná.
Responsável pela capela, o padre Antônio Fabris destaca que o reconhecimento pelo Iphan ampliou ainda mais a responsabilidade na conservação do espaço. “Essa capela tem uma importância muito grande para a nossa região e, a partir do tombamento pelo Iphan, passou a ter também um reconhecimento nacional. Hoje ela é patrimônio nacional e faz parte da história da Igreja em Curitiba, no Paraná e também da história da Igreja no Brasil. Por isso procuramos cuidar desse espaço com todo carinho, para que continue sendo um marco dessa trajetória.”
Segundo o pároco, atualmente a comunidade realiza uma missa por mês na capela. “Estou sozinho na paróquia e são 15 comunidades para atender, então não consigo estar aqui todos os finais de semana. Mas, uma vez por mês, celebramos a missa com a comunidade. Estimamos que cerca de 50 a 60 famílias vivam nas proximidades e participem das atividades”, comenta.

Região com potencial turístico forte
Morador da região, empresário do turismo e frequentador da capela, Ubiratã Pedro Bruel afirma que sua família vive no Tamanduá desde o final do século XIX e sempre esteve ligada aos cuidados da igreja. “Minha família sempre cuidou da capela. Meus pais, meus tios e minha mãe organizaram durante muitos anos a festa da padroeira e ajudaram na conservação desse patrimônio.”
Segundo ele, durante muitos anos os próprios moradores assumiam grande parte da manutenção do espaço e da organização das festividades religiosas. “Queremos reformar o barracão, organizar mutirões e voltar a realizar a festa de Nossa Senhora da Conceição. É uma tradição muito importante para a comunidade e queremos que ela continue”, conta. 
Porém, além da preservação da capela, existe o sonho em transformar a área em um espaço de convivência e visitação, com potencial para receber interessados em apreciar a história e natureza exuberante apresentada na região. “Temos uma área muito bonita ao redor da capela que poderia ser aproveitada para receber famílias, visitantes e peregrinos. Pensamos em criar quiosques, espaços para descanso e lazer, sempre respeitando o patrimônio histórico”, diz. 
Segundo ele, a ideia é unir preservação, turismo e educação patrimonial. “Nosso desejo é que esse patrimônio continue sendo cuidado pelas próximas gerações. Muitas construções históricas acabaram desaparecendo ao longo do tempo. Nós queremos justamente o contrário, a intenção é preservar essa história e permitir que cada vez mais pessoas conheçam esse lugar tão importante para o Paraná”, retrata.

Uma das igrejas mais antigas do Paraná
Bruel explica que a construção da capela teve início em 1709, inicialmente em madeira, por iniciativa do capitão Antônio Tigre. Posteriormente, entre 1727 e 1730, a estrutura definitiva foi erguida em pedra argamassada, permanecendo praticamente preservada até os dias atuais. “Hoje ela é patrimônio tombado e é considerada a segunda capela mais antiga construída no Paraná que continua de pé, ficando atrás apenas da Igreja Nossa Senhora da Luz, em Paranaguá, no litoral do Estado”, conta.
Ele também comenta que a imagem original de Nossa Senhora da Conceição, trazida de Portugal, já não permanece no local. “A imagem que está aqui hoje não é a original. A imagem original foi levada para Palmeira e permanece na igreja matriz daquele município atualmente”, retrata.

Tamanduá já foi um dos principais centros do Paraná
Muito antes do desenvolvimento de diversas cidades da região, o Tamanduá ocupava posição estratégica durante o ciclo do tropeirismo e segundo Bruel, a intensa circulação de tropeiros transformou a localidade em um importante centro comercial. “Na época do tropeirismo, o Tamanduá era a terceira freguesia mais importante do Paraná, atrás apenas de Curitiba e Paranaguá. Havia muito comércio aqui por causa da passagem dos tropeiros”, ressalta.
Ele explica que existia uma travessia no Rio Iguaçu utilizada pelas tropas, onde inclusive era cobrado pedágio dos animais. “O movimento era muito grande, pois os tropeiros vinham da Lapa, passavam pelo Tamanduá e seguiam em direção aos Campos Gerais. Com a abertura de um novo caminho entre Lapa e Palmeira, que encurtava o trajeto, o fluxo comercial diminuiu significativamente, contribuindo para a perda da importância econômica da região e foi justamente com essa mudança de rota que ocorreu a transferência da imagem original de Nossa Senhora da Conceição para Palmeira”, relembra. 
Segundo a tradição preservada pelos moradores, existe uma lenda ligada ao episódio. “Dizem que Nossa Senhora não queria deixar o Tamanduá e chorou durante sete dias. As lágrimas teriam feito os rios encherem, impedindo a travessia. Provavelmente isso aconteceu porque era um período de muitas chuvas, mas essa história faz parte da tradição oral da comunidade.”

A origem do Rio das Mortes
Outra história preservada pelos moradores explica a origem do nome do Rio das Mortes, localizado nas proximidades da capela. Segundo Bruel, a denominação remete a um conflito ocorrido entre bandeirantes e indígenas que habitavam a região. “Conta-se que os bandeirantes chegaram à aldeia enquanto os homens estavam caçando e mataram mulheres, crianças e idosos. Quando os indígenas retornaram, perseguiram os invasores e houve uma grande batalha às margens do rio, então muitas pessoas morreram naquele confronto e, por isso, o local passou a ser conhecido como Rio das Mortes”, finaliza.

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