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Campo Largo transforma reciclagem em política pública e vira referência para o Paraná

Município assume programa antes operado pela iniciativa privada e aposta em benefícios como passagens de ônibus, desconto futuro na taxa do lixo e créditos de Estar para ampliar adesão da população

Campo Largo transforma reciclagem em política pública e vira referência para o Paraná

Campo Largo oficializou na manhã desta terça-feira (31) a transformação do antigo programa so+ma Vantagens em uma política pública municipal permanente. Rebatizada de Casa Eco, a iniciativa passa a ser operada pela Prefeitura e coloca o município entre os primeiros do Paraná a incorporar à estrutura pública um modelo que une reciclagem, tecnologia, educação ambiental e recompensas à população.

Na avaliação de autoridades estaduais e municipais, conforme apresentado na solenidade desta terça-feira, Campo Largo passa a se consolidar como um case de gestão pública com potencial de ser replicado em outras cidades paranaenses.

Durante o evento de lançamento da nova fase, realizado na unidade da Vila Bancária, o diretor do Centro de Assuntos Econômico-Tributários da Secretaria de Estado da Fazenda, Francisco de Assis Inocêncio, afirmou que o modelo implantado no município inaugura um conceito novo no Estado. “Estamos diante de um conceito completamente novo no Estado do Paraná. Já lancei essa semente para que nós possamos reproduzir este mesmo projeto em todos os outros municípios do Paraná.”

Segundo ele, a experiência de Campo Largo pode servir de exemplo justamente por mostrar como uma iniciativa privada consegue amadurecer, gerar resultados e, posteriormente, ser incorporada pelo poder público. “Temos que mostrar o que está acontecendo, como foi esse ciclo, que é trabalhoso, a condução do projeto e como é possível fazer essa transição do privado para o poder público”, disse.

Na mesma linha, o diretor de Desenvolvimento Sustentável e Inovação do Estado, Bernardo Zanini Fadel, avaliou que o programa representa uma visão moderna de gestão de resíduos. “É uma visão moderna, uma gestão completa, que transforma lixo em novas possibilidades.”

A decisão da Prefeitura de assumir o programa veio sustentada por números já acumulados desde o início da operação em Campo Largo, em maio de 2023. Entre maio de 2023 e janeiro de 2026, o então so+ma Vantagens recebeu 374.970 quilos de materiais recicláveis no município e contabilizou 2.262 pessoas cadastradas. No mesmo período, os participantes resgataram 16.534 itens por meio do sistema de pontuação.

Os dados também apontam impactos ambientais expressivos, com preservação de 4.731 árvores, economia de 32,2 milhões de litros de água e redução de 1,29 milhão de quilos de CO?. Além disso, o programa destinou R$ 119 mil em apoio financeiro às cooperativas locais.

A CEO e fundadora da SO+MA, Claudia Pires, afirmou que os resultados construídos ao longo dos quase três anos foram determinantes para que o projeto deixasse de ser apenas uma iniciativa da startup e passasse a integrar a política pública do município. “Em três anos conseguimos transformar o programa em uma política pública. Isso só aconteceu porque somamos muitos atores, e essa conexão entre poder público e iniciativa privada é fundamental”, afirmou.

Segundo ela, a consolidação da proposta ocorreu com base em acompanhamento técnico e monitoramento em tempo real dos impactos gerados. “Ao longo destes quase três anos nós fomos construindo com a Prefeitura, verificando por meio de dados todo o impacto ambiental e social, em tempo real, compreendendo a importância deste projeto se tornar uma política pública. Hoje o programa renasce como sendo do município”, disse.

Claudia também destacou que os materiais arrecadados seguem fortalecendo a cadeia local da reciclagem. “Todo o volume que chega destes materiais vai para as associações de Campo Largo, levando resíduos que poderão voltar para a cadeia produtiva de alguma maneira”, afirmou.

 

De projeto privado a política pública

Criado pela startup SO+MA, o programa começou a operar em Campo Largo em 02 de maio de 2023, inicialmente com uma unidade no Centro. O desempenho levou à ampliação da iniciativa, que ganhou novas estruturas em outros bairros e passou a atingir um público maior.

Agora, com a municipalização, o projeto deixa de depender da operação da iniciativa privada e passa a integrar oficialmente a política pública ambiental do município.

Para o secretário municipal de Meio Ambiente, Thiago Teixeira, o encerramento do ciclo da startup na cidade exigia uma decisão sobre a continuidade da proposta. Diante dos resultados, segundo ele, a opção foi pela incorporação definitiva. “É um programa muito bom, que tem um impacto positivo ambiental e social, e nós não poderíamos deixar que se encerrasse. Então tomamos uma decisão política junto com o prefeito Maurício Rivabem de municipalizar, que é se apropriar desse programa e transformar isso num programa municipal, uma política pública permanente”, afirmou.

 

Benefícios reais para a população

Ele explicou que o objetivo é estimular os moradores a separarem corretamente os resíduos em casa e encaminhá-los às unidades da Casa Eco, fazendo com que os materiais cheguem às associações já triados e com melhor valor de aproveitamento.

Um dos diferenciais da nova fase da Casa Eco é justamente o reforço nas contrapartidas oferecidas à população. A lógica do programa é simples. O morador leva materiais recicláveis até as unidades, recebe pontuação pelo aplicativo e pode trocar esses pontos por benefícios.

Segundo o secretário de Meio Ambiente, a Prefeitura já vai disponibilizar de forma imediata a troca por passagens do transporte coletivo. “De forma imediata, vamos colocar à disposição passagens do transporte público. Isso também tem um impacto ambiental, porque a pessoa deixa de usar o seu carro, usa o transporte público, é menos emissão, menos poluição. Então a gente incentiva também a mobilidade urbana”, explicou.

Além disso, a administração municipal estuda implementar desconto na tarifa de lixo para os participantes do programa. Outra possibilidade em análise é a inclusão de créditos para o Estar, o estacionamento rotativo da cidade. A participação no programa ocorre exclusivamente por aplicativo, onde o usuário pode acompanhar a pontuação, consultar os benefícios disponíveis e acessar conteúdos educativos.

Apesar dos avanços, a avaliação da Secretaria de Meio Ambiente é de que o município ainda está distante do potencial que pode alcançar. De acordo com Thiago, o índice de reciclagem de Campo Largo está hoje acima da média nacional e estadual, mas ainda é insuficiente diante do volume de resíduos gerados. “O Brasil recicla 4% dos resíduos. O Paraná recicla um pouco mais de 6% e Campo Largo está reciclando 10% do seu resíduo gerado. Então estamos acima do Estado e do Brasil, mas ainda é muito pouco. A ideia é que a gente consiga transformar nossa cidade numa cidade de lixo zero, que a gente consiga pelo menos reciclar 60% ou 70%”, disse.

Ele também chamou atenção para a contaminação frequente dos materiais recicláveis. “As pessoas ainda jogam fraldas, papel higiênico usado, resto de comida junto com o lixo reciclado. Isso é um problema. Existe um volume muito alto de rejeito, ou seja, de lixo que não dá para reciclar, separado de forma incorreta”, explicou.

 

Ganho ambiental, social e econômico

Durante o lançamento, o prefeito Maurício Rivabem destacou que a iniciativa tem impacto em diferentes frentes e ajuda a valorizar um trabalho que muitas vezes passa despercebido. “Muito feliz, porque é uma ideia importante, não só pela questão do meio ambiente, mas também uma questão de valorização das pessoas que fazem esse trabalho para nós hoje, os recicladores. Isso faz com que eles tenham dignidade. Então ganha a pessoa que está trazendo, ganha a pessoa que está ali trabalhando e ganha também o meio ambiente.”

O prefeito ressaltou ainda que, em muitos casos, projetos semelhantes se encerram quando termina o apoio da iniciativa privada. Em Campo Largo, porém, a proposta foi absorvida pelo município. Hoje, o município conta com três unidades do programa, no Centro, Itaqui e Vila Bancária, e já estuda a ampliação para novos bairros.

Rivabem também destacou o apoio da Prefeitura às associações de reciclagem. “Hoje nós conseguimos trazer inclusive um valor a mais para os recicladores. Nós pagamos R$ 197 por tonelada para eles reciclarem para nós. Além do que eles vendem, nós pagamos para eles ainda”, afirmou.

 

Cadeia local fortalecida

O impacto da Casa Eco também foi destacado por representantes de entidades ligadas ao setor produtivo e à política local. O presidente da Acicla, Vinicius Spack, avaliou que o programa contribui para unir população, empresários, poder público e sustentabilidade em uma mesma agenda. “O lixo não é um problema somente da Prefeitura, mas de toda a sociedade. Com este projeto conseguimos trazer essa responsabilidade e conscientização para as pessoas, bem como gerar valor”, afirmou.

Já o presidente da Câmara Municipal, Alexandre Guimarães, afirmou que políticas públicas eficazes dependem de articulação e construção coletiva. “A política pública precisa ter resultado, como essa. E ela só se constrói pelo diálogo entre parceiros”, declarou.

Também participaram do lançamento representantes da SIG, empresa parceira da iniciativa desde a implantação do projeto em Campo Largo. O presidente e gerente-geral da SIG Américas, Ricardo Rodriguez, disse que a nova etapa mostra que a sustentabilidade pode sair do discurso e se transformar em estrutura permanente. “Estamos celebrando a evolução de um projeto bem-sucedido para uma política pública estruturada, com potencial de gerar impacto duradouro para toda a sociedade”, afirmou.

 

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