Editorial inspirado no livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell
Vamos contar-lhes uma história, que muito se assemelha a algo que você certamente já ouviu falar. Essa história conversa com o universo de A Revolução dos Bichos, obra de George Orwell que utiliza uma sociedade de animais para refletir sobre poder, manipulação e autoridade. Era primavera, quando os animais de uma grande propriedade foram convocados a escolher quem seria o responsável por administrar a fazenda pelos anos seguintes. Mas, a disputa não se limitava a promessas de uma colheita melhor, o clima era estranho e haviam penas e pelos arrepiados por todos os lados. Independente de quem estivesse à frente do discurso, o medo parecia ocupar o lugar que deveria ser reservado à discussão de propostas. Não bastava convencer que uma proposta era melhor, mas era preciso fazê-los acreditar que a outra era o fim de tudo.
Por exaustivos dias, alguns anunciavam desgraças, enquanto os que já estavam no poder explicavam por que cada ameaça deveria ser levada a sério. Mas entre os animais daquela vasta propriedade, poucos se perguntavam de onde vinham todas aquelas certezas. Afinal, quando se dizia que o celeiro pegaria fogo, quem teria coragem de discutir a qualidade da palha? Foi então que eles passaram a escolher não aquilo que acreditavam, mas aquilo que mais temiam perder.
No dia da votação, o resultado contrariou as previsões de alguns e confirmou as esperanças de outros; os vencedores celebraram como se a vitória comprovasse todas as suas verdades. Os derrotados, por sua vez, procuraram explicações para o desfecho inesperado. Entre os dois grupos, o mais cético dos animais fez a pergunta mais simples, questionando se tantas catástrofes haviam sido anunciadas, quais eram reais e quais haviam servido apenas para manter a fazenda assustada?
Na manhã seguinte, alguns pediram explicações sobre decisões tomadas durante o processo e prontamente animais eleitos responderam que questionar os procedimentos era desrespeitar a escolha coletiva. Outros disseram que as perguntas enfraqueciam a fazenda e favoreciam seus inimigos, mas o fato é que ninguém parecia disposto a considerar que fiscalizar os dirigentes não significava necessariamente acusá-los, assim como exigir provas não significava acreditar em qualquer rumor. A confiança, naquela fazenda, começava a ser confundida com obediência.
O animal cético observou os vizinhos discutirem, agora menos preocupados com a qualidade da colheita do que com as intenções uns dos outros. Alguns já não enxergavam adversários, mas inimigos; outros aceitavam qualquer explicação para não gerar conflitos. Enquanto isso, os eleitos continuavam administrando e quase ninguém perguntava se as promessas feitas durante a disputa seriam cumpridas.
Mas foi em uma determinada noite, que o animal cético compreendeu que a liberdade não desaparecia apenas quando alguém fechava os portões da fazenda. Às vezes, começava a desaparecer quando os animais aprendiam a ter medo de perguntar, quando confundiam suspeitas com provas e quando aceitavam que o futuro inteiro dependia da vitória de um único grupo. E fez a si mesmo uma última pergunta, questionando de que adiantava escolher quem conduziria a fazenda se, ao final, os animais já não se sentiam livres para pensar?