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Estudantes acompanham júri que termina com condenação de 26 anos por feminicídio em Campo Largo

Estudantes acompanham júri que termina com condenação de 26 anos por feminicídio em Campo Largo

Foi realizado na tarde desta terça-feira (14), no Tribunal do Júri em Campo Largo, o julgamento do acusado de matar o cunhado ao tentar atingir a própria companheira, em um caso que o Ministério Público classifica como feminicídio por erro na execução no documento de denúncia. O julgamento reuniu familiares, autoridades e cerca de 100 estudantes da rede pública estadual, que acompanharam a sessão como parte de uma ação de conscientização.

Entre o público, estudantes acompanharam o julgamento como parte de uma atividade pedagógica. A Folha conversou com duas estudantes do Colégio Cívico-Militar 1º Centenário, que destacaram a relevância da experiência. Elas disseram que é importante entender os sinais. Às vezes começa com algo pequeno e pode evoluir para algo muito mais grave.

As estudantes também apontaram que o tema precisa ser discutido amplamente. “É uma questão social que precisa ser abordada, para evitar que outras pessoas passem por isso”, afirmaram. Essa foi a primeira vez que elas puderam assistir um julgamento de júri popular e estavam aproveitando a experiência para aprender também sobre as profissões presentes ali, como promotoria, advogado de defesa, juíza, policiais militares, entre outros.

A iniciativa surgiu após uma série de palestras realizadas nos colégios estaduais da cidade, com o intuito de conscientizar a cerca da violência doméstica, tanto na prevenção, como canais de denúncia, bem como também prevenir o feminicídio, ao longo do mês de março. Segundo o promotor de Justiça, Dr. Eduardo Dahia, em entrevista à Folha, a iniciativa tem revelado uma realidade preocupante entre adolescentes do município. “Muitas meninas vieram conversar após as palestras, algumas chorando, relatando que a própria mãe sofre violência e não consegue sair dessa situação”, afirmou.

De acordo com ele, embora não possa intervir diretamente em casos envolvendo adultos, o trabalho busca orientar e empoderar essas jovens. “Eu não posso tirar uma mulher adulta de casa, mas a filha pode incentivar, pode dizer que a mãe tem direito, que não precisa viver assim. A ideia deste projeto é plantar essa semente de conscientização, em não aceitar um relacionamento abusivo, em mostrar que ele começa com uma palavra ofensiva e pode terminar em morte”, completou.

 O caso a ser julgado

De acordo com a denúncia, o crime ocorreu na noite de 08 de fevereiro de 2025, em um bar no bairro Rivabem. Segundo o Ministério Público, o réu, motivado por ciúmes, tentou atacar a companheira com uma faca, mas acabou atingindo Emerson Texca Machado, irmão dela, que teria entrado na frente para protegê-la. A vítima morreu após ser ferida por dois golpes.

Durante o julgamento, a companheira do acusado e irmã da vítima prestou depoimento e relatou o contexto da relação. Segundo ela, os dois moravam juntos e não tinham filhos. Na noite do crime, estavam em um bar quando o réu teria se irritado e tentado leva-la embora, pedido que havia sido negado pela companheira.

Ela afirmou que o acusado estava com uma faca e desferiu dois golpes. “Tinha muita gente no local”, relatou, acrescentando que havia mais de dez pessoas ao redor no momento da ocorrência.

A testemunha também descreveu episódios anteriores de violência e comportamento possessivo. Segundo ela, em uma discussão ocorrida na véspera de Natal de 2024, o réu teria feito ameaças e que ele tinha sentimento de propriedade com relação a ela.

Ainda conforme o depoimento, o acusado saiu de casa no dia do crime já portando a faca dentro de uma bolsa, alegando que havia pessoas que não gostavam dele. Ela também afirmou que o relacionamento entre o réu e a vítima era, até então, sem conflitos aparentes. A vítima, Emerson, deixou cinco filhos.

O policial militar que atendeu a ocorrência confirmou que, ao chegar ao local, recebeu a informação de que o autor do ataque era um familiar e que a vítima havia sido atingida ao tentar defender a irmã.

Segundo o agente, após o crime, o acusado se desfez da faca em um local próximo e fugiu, sendo localizado posteriormente. Ele apresentava um corte na mão na abordagem. Questionado, não explicou a motivação, afirmando apenas que havia se envolvido em uma briga.

 Acusação sustenta feminicídio por erro na execução

Em entrevista, o promotor de Justiça responsável pelo caso, Eduardo Labruna Daiha, afirmou que o Ministério Público sustenta que o crime deve ser enquadrado como feminicídio, mesmo tendo como vítima um homem. “Ele veio tentar dar uma facada nela. O irmão entrou na frente e foi atingido. A motivação é o feminicídio. A gente chama isso de erro na execução”, explicou.

O promotor também destacou o contexto de violência e controle. “O homem acha que é dono da mulher. O relacionamento abusivo começa com uma palavra ofensiva e pode terminar em morte”, afirmou.

 Defesa nega tentativa contra companheira

Já a defesa, representada pelo advogado Moisés Trindade, apresentou versão diferente. Segundo ele, não houve tentativa de agressão contra a companheira. “A intenção dele em momento algum era atingir a companheira”, afirmou em entrevista à Folha.

De acordo com o advogado, o conflito teria ocorrido diretamente entre o acusado e a vítima, após o réu acreditar que havia um envolvimento amoroso entre a irmã da vítima e outro homem. “A reação foi diante de uma provocação”, disse.

A defesa reconhece que o acusado desferiu os golpes, mas sustentou ao longo do júri que a dinâmica dos fatos é diferente da apresentada pela acusação.

 Condenação

Ao final do julgamento, o Conselho de Sentença acatou a tese do Ministério Público e condenou o réu a 26 anos e oito meses de prisão, em regime inicial fechado.

A decisão reconheceu o crime como feminicídio qualificado por meio que dificultou a defesa da vítima, com erro na execução, entendimento sustentado pela acusação ao longo do júri. Nesse caso, embora a vítima fatal tenha sido um homem, os jurados consideraram que a motivação do crime estava ligada à violência contra a mulher, já que o alvo inicial seria a companheira do acusado.

A defesa já interpôs o recurso de apelação, reafirmando a tese de que o crime em si ocorreu, porém o réu não tinha a intenção de vitimar a companheira. “Eles tinham um relacionamento normal, conviviam, e ele tinha outras oportunidades de executar esse crime contra ela, até porque eles dividiam a mesma cama, não necessitando fazer isso em público”, declarou o advogado de defesa.

 

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