Igreja cheia, corredores ocupados e pessoas também do lado de fora, que tentavam acompanhar, de alguma maneira, cada canção e palavra pronunciada. Assim, a missa das 9h desta Quarta-Feira de Cinzas (18) começou pontualmente, na Paróquia Nossa Senhora da Piedade, com grande presença de fiéis. Havia pessoas de todas as idades, desde crianças ainda muito pequenas até idosos, e, apesar do espaço tomado, o ambiente era de silêncio, respeito e atenção. Podia-se perceber que o clima de recolhimento, exigido para o momento solene, já marcava presença na celebração que abre oficialmente a Quaresma para os católicos, período que segue até a Páscoa, em 5 de abril.
A homilia foi conduzida pelo pároco Luciano Tokarski, que centrou sua reflexão no sentido prático e espiritual do tempo quaresmal. Adotando um tom quase didático, ele definiu a data como um ponto de partida para revisão de vida, disciplina interior e mudança de atitudes, princípios que, segundo ele, podem ser aplicados mesmo fora do contexto religioso. “A Quaresma é um tempo em que nós vamos fazer um grande exercício na nossa vida. Um exercício penitencial, um exercício espiritual, um exercício para a alma — e o exercício para a alma faz bem para o corpo e para o espírito.”
Segundo o sacerdote, o período é tradicionalmente associado a três pilares: a caridade, a oração e o jejum. Mais do que práticas isoladas, ele explicou que se trata de um método de reorganização interior. “É um tempo propício para entrar nas nossas intimidades, examinar as nossas relações, a nossa vida espiritual, a nossa relação com Deus, com os outros e com nós mesmos”, ressaltou.
Ao abordar a caridade, o padre reforçou que a proposta do Evangelho é a ajuda discreta, sem busca de reconhecimento público. A prática, segundo ele, precisa ser silenciosa e concreta. Ele também associou o gesto solidário ao desapego material. Durante a homilia, sugeriu que os fiéis aproveitem o período para rever acúmulos e abrir espaço, tanto físico quanto emocional. “É um bom tempo para desapegar-se, seja de roupas que não usamos mais, de objetos parados, de coisas que ocupam espaço na casa e que estão juntando pó e mofo, e também dentro de nós. O apego bloqueia”, alertou o padre.
Outro ponto abordado durante a reflexão foi a oração entendida como prática constante, não como demonstração externa. O padre destacou que rezar não está ligado à quantidade, mas à intenção e à regularidade, e a fazer da vida um lugar onde Deus está presente.
Ele orientou que momentos simples, como leitura espiritual, meditação e oração breve, podem ser incorporados à rotina. Também defendeu que atividades comuns podem ganhar dimensão espiritual quando feitas com consciência e consagração, como o trabalho, a atividade física, as responsabilidades do dia e a contemplação da natureza.
Jejum para desacelerar e reorganizar
Sobre o jejum, prática tradicional da Quarta-Feira de Cinzas, o sacerdote explicou que o sentido vai além da alimentação. A proposta inclui reduzir excessos de fala, de consumo de mídia e de dispersão. “Hoje é dia de jejum e abstinência. Dia de diminuir. Diminuir o alimento, diminuir as falas, diminuir o barulho, diminuir o ritmo. É desacelerar para deixar Deus agir”, disse.
Ele diferenciou o descanso necessário do tempo desperdiçado, muito comum nesta geração, e sugeriu substituir hábitos automáticos por escolhas conscientes. “Existe o descanso que é sagrado. Mas existe o tempo perdido. Esse pode ser transformado com atitudes simples e intencionais, como a leitura, a reflexão, uma caminhada em meio à natureza, em algo que faça crescer e seja edificante”, aconselhou.
Já na parte final da homilia, o padre chamou atenção para o cuidado com a linguagem e com as intenções, citando o apelo recente da Igreja para a redução de discursos rancorosos. “Às vezes, o jejum mais sagrado é o jejum da palavra, o jejum do olhar, o jejum das intenções ruins. Você não foi criado para as coisas ruins, mas as coisas boas são uma escolha. Nós decidimos fazer oração, jejum e caridade. É escolha”, finalizou.
Mensagem do Papa Leão XIV
Queridos irmãos e irmãs do Brasil,
“Chegamos à época solene que nos lembra o dever de nos aplicarmos à prece e ao jejum mais do que em qualquer outro tempo do ano, iluminando nossas almas e disciplinando nossos corpos» (Sermão 210). Assim escreveu Santo Agostinho em um de seus sermões sobre o tempo litúrgico que estamos para iniciar, durante o qual recebemos um especial chamado de Deus a uma autêntica conversão, redirecionando toda a nossa vida para Ele, ao seguirmos, por meio do jejum e a penitência, os passos de Nosso Senhor que se retirou no deserto por quarenta dias. Neste tempo de intensa oração, somos igualmente convidados a praticar com renovado empenho a virtude da caridade com os mais pobres e necessitados, com os quais o próprio Cristo se identifica (cf. Mt 25, 35-40). O Espírito Santo, autor da nossa santificação, nos conduza ao longo deste caminho.
Com o intuito de animar o povo fiel em cada itinerário quaresmal, há mais de sessenta anos que a Igreja no Brasil realiza a Campanha da Fraternidade, momento em que, como comunidade de fé, dirige a sua ação pastoral e caritativa aos pobres, os verdadeiros destinatários do nosso amor preferencial, como fiz questão de recordar na Exortação Apostólica Dilexi te: convencidos de que «existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres» (n. 36), «devemos empenhar-nos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza» (n. 94). À semelhança do que havia sido feito em 1993, no presente ano, inspirados pelo lema “Ele veio morar entre nós” (cf. Jo 1, 14), a proposta apresentada é aquela de voltar o olhar para os nossos irmãos que sofrem com a falta de uma moradia digna.
O meu santo predecessor, São João Paulo II, convidava a voltar a atenção «para os milhões de seres humanos privados de uma habitação conveniente, ou até mesmo sem qualquer habitação, a fim de despertar a consciência de todos e encontrar uma solução para este grave problema, que tem consequências negativas no plano individual, familiar e social», afirmando que «a falta de habitações, que é um problema de per si muito grave, deve ser considerada como o sinal e a síntese de uma série de insuficiências econômicas, sociais, culturais ou simplesmente humanas» (Sollicitudo Rei Socialis, 17).
Neste sentido, é meu desejo que a reflexão sobre a dura realidade da falta de moradia digna, que afeta tantos irmãos nossos, leve não somente a ações isoladas sem dúvida, necessárias — que venham de modo emergencial em seu auxílio, mas gere em todos a consciência de que a partilha dos dons que o Senhor generosamente nos concede não pode restringir-se a um período do ano, a uma campanha ou a algumas ações pontuais, mas deve ser uma atitude constante, que nos compromete a ir ao encontro de Cristo presente naqueles que não tem onde morar.
Desejo igualmente, queridos irmãos e irmãs, que as iniciativas nascidas a partir da Campanha da Fraternidade possam inspirar as autoridades governamentais a promover políticas públicas, a fim de que, trabalhando todos em conjunto, seja possível oferecer à população mais carente melhorias significativas nas condições de habitação.
Confio estes votos aos cuidados de Nossa Senhora, que não encontrou morada em Belém para dar à luz ao Redentor, mas que tem sua casa, como Rainha e Padroeira do Brasil, no Santuário Nacional de Aparecida. E, como penhor de abundantes graças, concedo de bom grado aos filhos e filhas da querida nação brasileira, de modo especial àqueles que se empenham para que todos tenham moradia digna, a Bênção Apostólica.”
Vaticano, 11 de fevereiro de 2026, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes.





