09-08-2011
A cada dois meses, cinco pessoas são mortas em Curitiba em confrontos com policiais militares. Estatística fica fora dos dados oficiais.
09-08-2011
A cada dois meses, cinco pessoas são mortas em Curitiba em confrontos com policiais militares. Estatística fica fora dos dados oficiais.
09-08-2011
Fonte: Gazeta do Povo
Por: Diego Ribeiro e Felippe Aníbal
Quinze pessoas foram mortas em confrontos com policiais militares nas ruas de Curitiba no primeiro semestre deste ano - média de cinco mortes nessas circunstâncias a cada dois meses. O levantamento do Setor de Estatística da Delegacia de Homicídios da capital, obtido com exclusividade pela Gazeta do Povo, revela um aumento de 36,6% em relação ao mesmo período de 2010. O resultado poderia ser mais preocupante se considerasse as sete casos registrados em julho na capital.
Os dados, não oficializados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), são um termômetro das ações policiais e podem gerar mais violência, segundo especialistas. A Sesp diz que analisa uma forma para tornar esses números públicos.
"Essa alta letalidade só aumenta a violência dos criminosos e o medo em relação à polícia", afirma o sociólogo e coordenador do Grupo de Estudos da Violência da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Pedro Bodê. Segundo ele, o panorama curitibano reflete um problema nacional e está incorporado na cultura do país. "Parte da sociedade exige que a polícia aja dessa maneira", explica.
O levantamento mostra que os confrontos ocorrem com mais frequência à noite e na madrugada. Doze mortes foram registradas nesses períodos e três durante o dia. "É o horário [noite e madrugada] em que ocorrem mais crimes e quando há menos testemunhas também", ressalta Bodê.
A divisão geográfica do estudo revela que a Polícia Militar (PM) matou mais na periferia (veja quadro), em bairros como Capão Raso, Cajuru, Pinheirinho, Boqueirão, Lindóia, Alto Boqueirão, Umbará, Xaxim e Tatuquara. Na região mais centralizada, foram três óbitos em confronto. Em oito mortes a PM informou que os confrontos ocorreram após assaltos ou tentativas. Nos outros sete casos, as vítimas eram suspeitas ou reagiram a abordagens.
A assessoria de imprensa da PM informou que foram abertos 123 inquéritos policiais militares no Paraná entre janeiro e março deste ano. Desse total, 33 foram por morte em confronto, 10 em razão de extravio ou perda de arma, 49 por lesões corporais e 31 por outros crimes. O comando-geral e a corregedoria da PM foram procurados para comentar o assunto, mas informaram que não se pronunciariam porque o levantamento do primeiro semestre sobre as punições aplicadas não estava pronto.
Quando há justificativa
O coronel da reserva e ex-comandante da PM do estado de São Paulo Rui César Melo diz acreditar que o uso da arma se justifica apenas quando o bandido oferece risco de morte a um cidadão ou ao próprio policial. Via de regra, para haver reação policial, seria preciso que o suspeito empunhasse a arma ou que houvesse menção clara de usá-la. "O confronto só é aceitável se o policial militar detectar esse risco", resume o coronel.
Melo condena confrontos em casos de tentativa de fuga à abordagem policial ou quando o suspeito não está com a arma em mão. "A orientação é que seja feito um acompanhamento tático, sem uso de arma de fogo, fazendo o cerco ao suspeito", diz.
Treino em reformulação
A Polícia Militar do Paraná está programando uma reformulação no programa de instrução de tiro na Academia do Guatupê. Segundo o comandante da academia, tenente-coronel João de Paula Carneiro Filho, o foco da mudança será um reforço à preservação da vida. O oficial explica que o policial militar já é orientado a atirar apenas quando há risco real contra ele ou outra pessoa.
Segundo Carneiro Filho, a ação do policial deve ser direcionada para a imobilização do suspeito em um primeiro momento. "A grande maioria dos confrontos ocorre à noite e nem sempre há condições de ver a silhueta da pessoa. Matar não é a intenção do policial", afirma. Ele conta que os policiais voltam ao treinamento de tiro a cada seis meses e cada unidade da PM deve incentivar o treino constante, além de outras matérias, como direitos humanos e cidadania.
Insuficiente
Outro policial, que pediu para não ser identificado, afirmou que o treino de tiro é insuficiente para manter uma equipe bem preparada para o dia a dia. De acordo com ele, as instruções são básicas e ocorrem quase que exclusivamente nos cursos de formação.
O policial lembra-se de outro problema. "A PM não está equipada de forma adequada para o uso progressivo da força. Da verbalização, o policial passa direto para o saque da arma de fogo", ressalta. Segundo o policial, um curso de 2009, chamado Proavante, mantinha os policiais em constante treino, mas acabou sem explicações. A reportagem apurou que o curso acabou em razão da falta de efetivo policial. Como cerca de 50 policiais ficavam imersos em curso durante uma semana, a capacitação acabou criando problemas nas escalas.