A Prefeitura de Campo Largo formaliza na tarde desta sexta-feira (26) uma nova etapa da política municipal de reciclagem com a assinatura dos contratos de prestação de serviços ambientais com cinco organizações de recicladores, sendo quatro associações e uma cooperativa. O investimento previsto ultrapassa R$ 700 mil e, conforme informações da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA), representa um avanço na valorização do trabalho desenvolvido pelos profissionais responsáveis pela triagem dos resíduos recicláveis do município.
A assinatura será realizada na sede da SMMA e reforça uma mudança iniciada em 2025, quando o município passou a remunerar diretamente as associações pelo serviço ambiental prestado. Até então, as entidades sobreviviam exclusivamente da comercialização dos materiais recicláveis separados nos barracões.
Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Thiago de Lima Teixeira, em entrevista à Folha, a medida busca reconhecer a importância dos catadores dentro da cadeia da reciclagem e fortalecer a estrutura das organizações. “Essas associações são protagonistas dentro da política de resíduos sólidos. Elas fazem um trabalho fundamental para a cidade, mas historicamente não eram remuneradas por esse serviço. O município passou a reconhecer esse trabalho ambiental e social, criando um mecanismo de pagamento pela quantidade de material efetivamente triada”, explica.
No ano passado, o repasse totalizou cerca de R$ 500 mil. Com a renovação dos contratos, o valor destinado às entidades ultrapassará R$ 700 mil. De acordo com o secretário, os recursos podem ser utilizados tanto para melhorar a renda dos associados quanto para investimentos em equipamentos e infraestrutura. “A ideia é estimular a eficiência, melhorar as condições de trabalho e ampliar a capacidade de processamento dos materiais recicláveis. Isso beneficia diretamente os trabalhadores e também o meio ambiente”, afirma.
Coleta seletiva evita sobrecarga em aterro
A importância da reciclagem ganha ainda mais relevância diante da situação do aterro sanitário utilizado pelos municípios da Região Metropolitana de Curitiba, localizado em Fazenda Rio Grande. Conforme dados da Secretaria de Meio Ambiente, Campo Largo gera cerca de duas mil toneladas de resíduos por mês, e, desse total, aproximadamente 10% são reciclados, índice superior à média estadual e nacional.
A superintendente da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Mirela Jacomasso Medeiros, destaca que ampliar a reciclagem é uma necessidade cada vez mais urgente. “O aterro tem vida útil limitada e todos os municípios da região precisam trabalhar para reduzir a quantidade de resíduos encaminhados para disposição final. A reciclagem é uma das ferramentas mais importantes para isso”, ressalta.
Segundo ela, Campo Largo se tornou referência regional ao manter cinco organizações formalizadas de catadores, realidade ainda distante de muitos municípios, inclusive da região metropolitana.
Embora a reciclagem seja uma das principais estratégias para reduzir o volume de resíduos encaminhados aos aterros sanitários, parte do material coletado ainda não possui viabilidade de reaproveitamento, gerando os rejeitos, que recebem atualmente uma destinação alternativa em Campo Largo.
Segundo Mirela, os materiais que não podem ser reciclados pelas associações são encaminhados para coprocessamento nos fornos da indústria cimenteira instalada no município, onde são utilizados como fonte energética. “Hoje o rejeito das associações, aquilo que não é passível de reciclagem, é encaminhado para a queima nos fornos da cimenteira. Dessa forma, ele acaba sendo aproveitado como combustível e deixa de ocupar espaço no aterro sanitário”, explica.
Dados da Secretaria Municipal de Meio Ambiente apontam que, considerando resíduos volumosos e rejeitos da coleta seletiva, aproximadamente 1,8 mil toneladas foram destinadas para coprocessamento em um período de 12 meses.
Apesar de representar uma alternativa ambientalmente mais adequada que o aterramento, os gestores ressaltam que a prioridade continua sendo a redução na geração de resíduos e o aumento dos índices de reciclagem. “O ideal é que cada vez menos materiais cheguem à condição de rejeito. Isso depende tanto da separação correta feita pela população quanto do desenvolvimento de novas tecnologias e mercados capazes de absorver materiais que hoje ainda não têm reciclagem viável”, afirma o secretário.
Caminhão será entregue para associação
Durante o evento desta sexta-feira também será realizada a entrega de um caminhão para uma das associações de reciclagem do município. O veículo foi adquirido por meio de programas desenvolvidos em parceria com a Itaipu Binacional e o Consórcio Intermunicipal de Saneamento do Paraná (Cispar), que vêm promovendo a modernização das unidades de valorização de resíduos.
Nos últimos anos, as associações receberam equipamentos como prensas, empilhadeiras, esteiras, uniformes e outros materiais destinados a melhorar as condições operacionais dos barracões de triagem. “Estamos falando de investimentos que ultrapassam R$ 3 milhões em equipamentos e estrutura para as associações. Muitos desses equipamentos não eram renovados há mais de uma década”, observa Thiago.
Desafio continua dentro de casa
Apesar dos avanços, a Secretaria de Meio Ambiente avalia que o principal desafio ainda é a conscientização da população. Segundo os responsáveis pela pasta, uma parcela significativa dos materiais enviados para a coleta seletiva chega aos barracões misturada com resíduos orgânicos, fraldas, fezes de animais e outros rejeitos que colocam em risco a saúde dos trabalhadores.
“Chega a ser uma situação desumana. É preciso compreender que a separação correta começa dentro de casa. Quando o material chega contaminado, além de dificultar a reciclagem, expõe os catadores a riscos sanitários”, alerta o secretário.
Mirela acrescenta que muitos moradores ainda desconhecem serviços já disponíveis no município, como a coleta de volumosos, a coleta verde e programas específicos para descarte de determinados resíduos. “O maior desafio hoje é levar informação para a população. Temos serviços disponíveis, mas muita gente ainda não sabe como acessá-los”, afirma.
Casa Eco deve ampliar participação da população
Outro tema abordado durante a entrevista foi a possibilidade da expansão do programa Casa Eco, que permite a troca de materiais recicláveis por benefícios. Durante o evento também serão assinados termos de cooperação com associações que passarão a operar unidades do programa.
Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, a iniciativa vem registrando aumento na adesão da população e deverá ganhar novos incentivos, incluindo a possibilidade de troca por créditos relacionados ao transporte coletivo e outros benefícios municipais.
Para os gestores, a discussão sobre resíduos não passa apenas pela coleta seletiva, mas também pela necessidade de reduzir o consumo e evitar desperdícios. “A política nacional de resíduos sólidos estabelece que a prioridade é não gerar resíduos. A reciclagem é importante, mas o primeiro passo é repensar hábitos de consumo e evitar desperdícios”, conclui o secretário.