A cada quatro anos, a chegada do álbum oficial da Copa do Mundo transforma bancas, papelarias e grupos de troca em pontos de encontro para colecionadores de todas as idades e, em 2026, o fenômeno voltou com força ainda maior. Publicado pela Panini, o álbum oficial da Copa do Mundo FIFA 2026 é o maior já produzido para o torneio, reunindo 980 figurinhas, sendo 68 cromos especiais, em uma coleção que acompanha a expansão da competição para 48 seleções.
Disponível nas versões brochura e capa dura, o álbum movimenta crianças, adolescentes e adultos em busca das figurinhas que faltam. Mas, por trás da brincadeira aparentemente simples, existe uma série de benefícios para o desenvolvimento infantil.
Segundo a psicóloga infantil Letícia Gonçalves, com formação em Neuropsicologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, colecionar figurinhas é uma atividade capaz de estimular competências cognitivas, emocionais e sociais importantes para a vida adulta. "De maneira geral, colecionar contribui para a estrutura e formação da mente. A criança precisa classificar, organizar e selecionar informações. Essas práticas fortalecem o pensamento lógico e a organização mental.”
Ela segue explicando que completar um álbum exige muito mais do que apenas comprar pacotinhos. A criança precisa organizar as figurinhas, identificar números, localizar espaços corretos e acompanhar o próprio progresso, um processo que desenvolve senso de responsabilidade e cuidado com os próprios pertences. "Coleções costumam ter valor afetivo. A criança aprende a cuidar do álbum, a não deixar figurinhas espalhadas, a guardar seus materiais adequadamente. Isso gera autonomia e zelo pelos próprios objetos", afirma.
Além disso, cada nova conquista fortalece a autoestima. "Quando ela encontra uma figurinha rara ou consegue completar uma página, experimenta uma sensação de realização. Isso aumenta a autoconfiança e a percepção de que é capaz de alcançar objetivos."
Aprendendo a lidar com a frustração
Uma das maiores lições do álbum pode estar justamente nas figurinhas repetidas, já que ao abrir um pacote, a expectativa nem sempre é correspondida. A figurinha desejada pode não aparecer, obrigando a criança a lidar com a decepção. "Em uma sociedade marcada pela busca por recompensas imediatas, a dinâmica das figurinhas oferece um aprendizado importante sobre espera e persistência. A criança precisa aguardar o momento de comprar novos pacotes ou esperar um encontro de troca. Isso a ajuda a desacelerar e desenvolver paciência."
Então, mais do que aceitar a decepção, ela aprende a buscar soluções. "Em vez de simplesmente desistir, a criança passa a pensar em estratégias. Ela entende que pode trocar figurinhas com amigos, procurar alternativas e agir para resolver o problema."
Trocas ensinam negociação e comunicação
As tradicionais rodas de troca também representam um verdadeiro “laboratório social”, uma vez que, segundo a psicóloga, ao negociar figurinhas, as crianças precisam iniciar conversas, argumentar, defender interesses e compreender as necessidades do outro. "Muitas vezes elas precisam sair da zona de conforto, abordar colegas e negociar. Isso estimula a comunicação verbal, a capacidade de argumentação e a negociação justa. A atividade também favorece o desenvolvimento da empatia, pois a criança percebe que uma figurinha sem valor para ela pode ser exatamente o que outra pessoa está procurando. Isso ajuda a compreender diferentes perspectivas", pontua.
Aula prática de educação financeira
Outro benefício frequentemente observado pelos pais está relacionado ao uso do dinheiro. Com os pacotinhos custando R$ 7 cada, muitas crianças precisam planejar gastos, economizar e fazer escolhas. "Para a criança, o dinheiro costuma ser algo abstrato. Quando ela percebe quantos pacotinhos consegue comprar com determinado valor, esse conceito se torna mais concreto. Quem recebe mesada, por exemplo, passa a refletir sobre prioridades e então entende que, se gastar todo o dinheiro em outra coisa, talvez não consiga comprar figurinhas depois. Isso exige planejamento e tomada de decisão", ressalta.
A própria lógica das trocas também favorece o pensamento econômico, já que, conforme explica Letícia, conforme o álbum vai se completando, a criança percebe que trocar figurinhas repetidas é mais vantajoso do que continuar comprando novos pacotes, exercendo a otimização de recursos.
"O cuidado é para que a coleção não se transforme em uma obsessão consumista. O álbum deve ser uma oportunidade de aprendizado e não apenas uma busca desenfreada por comprar mais", afirma recomendando que os pais estabeleçam limites financeiros e envolvam os filhos nos cálculos.
Geografia, cultura e Copa do Mundo
A edição de 2026 apresenta uma característica inédita, que é a participação de 48 seleções, o maior número da história da competição. Segundo Letícia, isso amplia ainda mais o potencial educativo do álbum. "Quando procura o lugar correto para colar a figurinha de uma seleção, a criança começa a construir uma noção de localização espacial e a mapear o mundo na sua cabeça", diz.
Por meio do álbum, muitas crianças acabam tendo o contato com diferentes países, o que desperta curiosidade sobre outras culturas, conhecimento a respeito das bandeiras, símbolos, nomes de países, fusos horários e costumes diferentes dos seus. Isso amplia o repertório cultural e favorece o pensamento crítico.
"Além disso, a criança entra em contato com conceitos de equipe, colaboração e esforço coletivo. Muitas vezes passa a enxergar a importância do grupo e não apenas dos jogadores mais famosos."
Um “antídoto” contra o excesso de telas
Em um período em que crianças passam cada vez mais tempo diante de celulares, tablets e videogames, o álbum surge como uma atividade analógica capaz de oferecer experiências diferentes. "As telas fornecem recompensas imediatas e hiperestimulantes ao cérebro infantil. Já o álbum trabalha outro ritmo. A criança precisa folhear páginas, procurar números, destacar figurinhas e colá-las nos espaços corretos. Esse processo mais lento ajuda a acalmar o sistema nervoso, melhora a concentração e favorece atividades que exigem atenção prolongada", enfatiza.
Até mesmo a coordenação motora é beneficiada, pois o ato de destacar e colar as figurinhas estimula a coordenação motora fina, uma habilidade importante para diversas tarefas do dia a dia.
Embora seja visto como uma brincadeira infantil, o álbum acaba reproduzindo, em escala reduzida, muitos desafios da vida adulta, como planejamento, tomada de decisão, negociação, persistência e flexibilidade fazem parte da jornada de quem tenta completar uma coleção. "O álbum ensina a criança a planejar, negociar, fazer escolhas e lidar com frustrações. Mas talvez o aprendizado mais importante seja valorizar o processo. A maior graça está na jornada, na expectativa pela próxima figurinha, nas trocas e nos encontros. É uma lição que levamos para a vida toda: aprender a valorizar o caminho percorrido, e não apenas o resultado final", finaliza.