Na tarde desta segunda-feira (13), a sessão da Câmara Municipal de Campo Largo recebeu a apresentação do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) de Campo Largo, realizada na Tribuna Livre. O diálogo ao longo de pouco mais de 40 minutos trouxe um diagnóstico técnico e social sobre áreas vulneráveis do município, além de evidenciar a urgência de ações estruturadas diante do aumento de eventos climáticos extremos. A explanação foi conduzida por Gustavo Tanaguchi, representante da empresa Urbtec, responsável pela elaboração do estudo em parceria com a ONU e o Ministério das Cidades.
Logo no início da apresentação, Gustavo destacou a relevância do plano como instrumento estratégico para prevenção de desastres e organização territorial. Segundo ele, o risco está diretamente ligado à vulnerabilidade, à ameaça e à exposição. Quando esses fatores se combinam, “há situações que podem resultar em desastres”, afirmou, completando que o objetivo central do PMRR é identificar áreas suscetíveis a enchentes, deslizamentos e outros eventos, permitindo que o município atue de forma preventiva. Ele alertou ainda para o impacto desigual desses locais. “A mortalidade em regiões vulneráveis pode ser até 15 vezes maior em comparação com áreas menos expostas.”
O representante também citou tragédias recentes no país, como deslizamentos e enchentes com vítimas fatais, para reforçar a necessidade de planejamento. “Se a gente não souber onde está o risco, fica muito difícil agir ou elaborar um plano de contingência”, disse.
Campo Largo foi contemplado pelo programa federal
Um dos pontos destacados foi que o município não terá custos para a elaboração do plano. Campo Largo foi selecionado em um programa federal que prevê a construção de planos de risco em cerca de 200 cidades brasileiras. “O município não está pagando nada por esse plano. Isso é uma iniciativa do governo federal em parceria com a ONU”, explicou Gustavo.
Ele ressaltou que, além do diagnóstico, o plano permitirá que o município tenha base técnica para buscar recursos. “Hoje, muitos municípios não conseguem nem quantificar o problema para pedir ajuda. Com o plano, será possível dizer exatamente o que precisa ser feito e quanto custa”, completou.
Então, disse que o PMRR está dividido em quatro etapas principais, compreendendo o planejamento, diagnóstico, elaboração de propostas e devolutiva à população. O diagnóstico envolve mapeamento técnico e escuta da comunidade. Oficinas já foram realizadas em diferentes regiões para captar informações locais, com o objetivo de perguntar para quem vive ali “até onde a água chegou?”, o que complementa o conhecimento técnico.
Já na etapa de propostas, serão definidas medidas estruturais, como obras de drenagem e contenção, e não estruturais, como ações educativas a serem executadas no município. Ele cita que às vezes, o problema da enchente pode estar relacionado ao descarte irregular de lixo, por exemplo, o que precisa ser enfrentado.
A equipe técnica já realizou mapeamentos em 12 regiões do município, com uso de drones e visitas de campo. Os estudos consideram riscos hidrológicos (enchentes), geológicos (deslizamentos) e tecnológicos (como acidentes com produtos químicos). Porém, segundo Gustavo, o trabalho não tem caráter fiscalizatório. “Não é para punir ninguém. É uma análise territorial para propor soluções adequadas.”
Importância do plano e participação popular
Durante o espaço para perguntas, vereadores reforçaram a relevância do estudo, especialmente para comunidades afetadas por alagamentos e erosões. O vereador Vitor Bini relatou a experiência em uma das oficinas e destacou a complexidade dos problemas. “Não é só desassorear o rio. Envolve lixo, estrutura, regularização fundiária, saneamento. É um conjunto de fatores”, chamando a atenção para a necessidade de maior engajamento da população. “A participação é fundamental. Quem vive o problema precisa ser ouvido”.
Na mesma linha, o vereador Sargento Leandro Chrestani apontou a falta de informação como um obstáculo, reforçando que é necessário divulgar mais o que vem sendo feito.
Um dos principais questionamentos foi sobre a efetividade prática do plano. O vereador Rogério das Tintas perguntou se haverá apoio financeiro para intervenções, como desassoreamento de rios. Em resposta, Gustavo destacou que “o plano não executa obras, mas dá o instrumento para o município buscar recursos. Sem esse levantamento, não tem como pedir dinheiro”. Ele citou programas federais que já destinaram bilhões para ações de mitigação de riscos e reforçou que o plano funcionará como base técnica para captação desses recursos.
O cronograma prevê a conclusão do plano em até 12 meses, com prazo estimado até o fim de 2026. Ainda serão realizados novos ciclos de oficinas e, ao final, uma audiência pública para apresentação dos resultados.
Sobre a possibilidade de ações imediatas, Gustavo destacou que, embora o contrato preveja a entrega final do relatório, medidas mais simples já podem ser iniciadas. “O próprio município, acompanhando as oficinas, já pode identificar ações não estruturais que podem começar antes mesmo do fim do plano”, disse, ressaltando a importância da transparência e do acesso às informações pela população e pelos parlamentares.
Ao longo da participação, os vereadores também demonstraram preocupação com a demora na implementação de soluções, diante dos impactos frequentes das chuvas. O vereador Rafael Freitas ressaltou a angústia da população. “A cada chuva, a aflição aumenta. As pessoas têm suas casas invadidas pela água. É uma situação urgente”, seguindo do questionamento se haveria possibilidade de medidas paliativas durante o processo, reforçando a necessidade de respostas mais rápidas.
O vereador André Gabardo também questionou o cronograma de execução do plano, buscando clareza sobre os prazos, sobre a previsão de entrega dos trabalhos e o vereador Athos Martinez chamou atenção para a aplicação prática do estudo e sua utilidade na captação de recursos, questionando se o plano resultará em projetos que permitam buscar investimentos junto aos governos estadual e federal. Também houve manifestações dos vereadores Junior Andreassa e Junior Polaco Preto, que abordaram a priorização das ações em áreas mais urgentes.
Ao encerrar a Tribuna Livre, o presidente da Câmara, Alexandre Guimarães, destacou que a iniciativa busca envolver o Legislativo no processo e ampliar a participação popular. “Campo Largo foi contemplado entre mais de 5.500 cidades. Isso é uma oportunidade de fazer um diagnóstico completo e planejar o futuro. Que a gente mobilize as associações de moradores e ajude na divulgação. A cidade ganha com isso. Ninguém faz um programa desse sem previsão de investimento. O planejamento precisa sair do papel e virar ação real”, concluiu.