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Perder a mãe traz sensação de desamparo, explica psicóloga

Embora natural, o luto é uma fase pela qual nem sempre as pessoas estão preparadas para passar; durante a pandemia, impactos podem ser ainda mais delicados

Este ano será diferente para muitas pessoas. Milhares que acabaram perdendo suas mães de várias formas, entre elas para a batalha contra a Covid-19. O fato é que perder a mãe é um dos momentos mais dolorosos na vida da maioria das pessoas. A Folha conversou com a psicóloga Mirella Carletto Silva (CRP 08/22278), psicóloga clínica e terapeuta de Perdas e Lutos Infantojuvenil e Adultos, que explicou melhor sobre toda essa situação.

“Perder a mãe significa perder um vínculo estabelecido e importante, traz um sentimento de vulnerabilidade e desamparo. Vários fatores podem interferir no processo de elaboração do luto e acabam o tornado complicado. Entre eles podemos citar o histórico de adoecimento e traumas que a própria pessoa sofreu ou sofre, a qualidade do vínculo e o papel que o falecido desempenhava, a idade que ocorreu a morte, forma e se tudo se sucedeu de maneira traumática; o que mais está acontecendo na vida do enlutado, bem como a existência de outras perdas ou mudanças.”

Mirella explica que o luto é um processo normal e esperado, considerado como único e singular e jamais deve ser considerado como uma doença, portanto, não cabem palavras como “cura” ou “superação”. “Não existe um tempo determinado para sua duração, pois ele envolve aprendizado, ressignificação, adaptar-se a uma nova vida. Não existem fases, pois cada enlutado vive sua perda à sua própria maneira, sem regras pré-definidas”, ressalta.

 

Luto na fase de pandemia

Desde o início da pandemia, já foram registrados mais de 384 mil mortes por Covid-19, no qual não é possível nem mesmo se despedir do ente querido. São mães, pais, filhos e familiares, que marcaram parte da vida de milhares de pessoas, que partiram.

“Nos casos de morte por Covid-19, no qual existe a impossibilidade de realizar o velório e enterro, é necessário que sejam realizados Rituais de Despedida. Eles têm o intuito de proporcionar aos familiares e amigos a despedida. Um exemplo de ritual que pode ser feito é escrever uma carta descrevendo todos as lembranças que havia da pessoa falecida e também sobre sentimentos específicos, como por exemplo ‘minha saudade, hoje quero lhe dizer...’”, diz.

A especialista explica que o isolamento social tem contribuído negativamente no processo de elaboração do luto no sentido de sentir-se limitado às interações sociais, já que ao vivenciar situações de perdas há uma necessidade de sentir o calor humano.

“Os impactos causados pela morte pela Covid-19 são delicados devido a alguns fatores, como a sensação causada pela morte repentina; o fato dos familiares estarem privados de acompanhamento hospitalar; por causar em alguns casos múltiplas perdas; não poder ver o corpo sem vida; ausência de realizar os rituais de despedida e o isolamento social”, revela.

Assim, como orienta Mirella, é preciso aceitar a realidade da perda, lidar com as emoções do pesar, adaptar a vida sem a pessoa, manter a lembrança e conexão com o falecido, reconstruir a própria identidade e a própria vida. Os familiares podem auxiliar acolhendo, respeitando, dando espaço e tempo que o enlutado necessita.

“Nos casos onde o enlutado sente a necessidade de aprender a lidar e expressar sua dor, continuar a vida após a perda, enfrentar novos desafios, e também em fatores que possam existir riscos, como perdas traumáticas, falta de apoio social e familiar, doenças físicas relacionadas à morte e doenças psiquiátricas, é de extrema importância buscar ajuda profissional”, aconselha.

 

Trabalhando o luto na infância

As crianças não devem ser privadas da realidade quando a morte acontece no meio familiar e por isso, Mirella dá orientações: “Ao comunicar uma notícia de morte para uma criança é necessário não omitir os fatos e não usar metáforas como ‘virou uma estrelinha’, mas sim permitir que possam sentir e expressar sua dor, oferecendo espaço para que possam conversar, de que seus sentimentos em relação à morte sejam ouvidos e validados sempre”.

“O luto não ocorre somente em casos de morte, mas também em situações que existam um rompimento de vínculo significativo. No caso de abandono da mãe e divórcio dos pais, ocorre este rompimento de vínculo e necessita de adaptação e a reconstrução de uma nova trajetória de vida. Para auxiliar, será importante acolher, permitir, respeitar e dar espaço e tempo que o enlutado necessita”, finaliza.