Sexta-feira | 16 de Abril de 2021 22:55
EM CAMPO LARGO 16º | 20º  
Geral

O que pode renascer na tua vida nesta Páscoa, questiona o padre Aguinaldo

Pandemia trouxe um momento de muitas angústias – que resultou em separações, ansiedade e até tentativas de suicídio -, mas traz também algo revelador, traz vida

Faltam palavras, falta o diálogo diante de um momento tão difícil que estamos vivendo e repleto de desafios, que tem levado as pessoas a se encontrarem com o que há de mais difícil, a angústia. Esse sentimento é quando não sabemos nomear, explicar o que estamos passando. Assim, Aguinaldo martins definiu esse tempo de pandemia que estamos enfrentando.

Com graduação em Filosofia, Teologia, Psicologia e pós-graduação em Clínica Psicanalítica, o padre Aguinaldo, da Igreja Nossa Senhora Aparecida, consegue fazer uma análise além do viés religioso. Explica que essa angústia é o que sentimos diante do desconhecido – citando que Freud chamava isso de “estranho” – e que toda vez que algo não familiar acontece nos causa angústia, que nos tira a capacidade de falar e saber do que está falando.

Cita também o filósofo Martin Reidegger, que já dizia que a angústia nos corta a palavra, assim nós não sabemos nomear, explicar o que estamos vivendo. “Porém, é importante ter um espaço de fala. A cura ou o contorno desta angústia se dá através da palavra, da conversa, diálogo, de uma terapia, de um bom café. É preciso dar estatuto de palavra ao que estamos sentindo. Se lá atrás a angústia nos roubou a palavra, não sabemos o que estamos passando, é importante que agora a gente fale. As pessoas que neste tempo estão fazendo terapia estão investindo no futuro, porque estão falando”, argumenta.

Lembra que Jesus também sentiu angústia, abandono, e que a Semana Santa nos leva a esse sentimento de Jesus: “Minha alma está profundamente triste até a morte” (Marcos 14:34). Segundo o padre, a angústia é algo revelador, pois “depois vem o momento de saber que no meio de tudo isso a gente descobre a vida. Para nós, cristãos, Jesus é a vida. E Ele disse: ‘Eu vim para que todos tenham vida”, explica Aguinaldo.

Ele acredita que já há pessoas que estão prevendo o melhor, percebendo que muitas coisas que não faziam antes hoje podem fazer, que o futuro pode ser mais interessante, que as relações podem ser mais verdadeiras, que os pais podem valorizar mais seus filhos. “Quando a gente se encontra com o real da vida o que fazemos é valorizar o que a gente ama”, completa.

Separação e ansiedade

No contato com os fiéis, com atendimento online nesta pandemia, Aguinaldo tem atuado com aconselhamento pastoral. Diz que as maiores demandas são de separação, ansiedade e tentativa de suicídio, em que essas pessoas precisam falar e colocar para fora o que estão sentindo. Muitas vezes ele só escuta e no final faz uma oração, porque as pessoas precisam fazer este desabafo.

A pandemia trouxe um aumento nos casos de divórcio porque, de acordo com o que ele observou em seus atendimentos, essa situação proporcionou um contato com o real. Vivendo mais em isolamento, convivendo mais em casal dentro de casa, o momento mostrou “tudo que a gente é, das nossas relações, do que somos, do que recalcamos, escondemos”. Em muitos casos essas situações mostraram que em algumas relações não existia mais amor ou não conseguiam lidar mais com aquele relacionamento. De certa forma, as pessoas passaram a se descobrir e a serem mais verdadeiras com elas mesmas. “A angústia é um afeto que não mente, como diz o psicanalista Jacques Lacan”, completou.

A ansiedade, segundo ele explica, vem de ânsia, sufocamento, que acontece porque, de alguma forma, a pessoa não foi atendida nas demandas ou desejos. Não atendido, então cai na angústia e isso se manifesta no corpo. A ansiedade vem de não encontrar onde está o seu desejo. A falta de se resolver com esses sentimentos acaba também se externando e hoje vemos com muita frequência pessoas que criticam até mesmo sem educação, que fazem muitos julgamentos, o que já mostra um reflexo de ansiedade. “A boca fala do que o coração está cheio”, contextualiza.

O que pode renascer?

A ansiedade, a angústia faz com que as pessoas foquem no que está morto, no negativo, conforme o padre Aguinaldo contextualiza: “Quando o anjo está na porta do túmulo, ele pergunta: ‘por que procuras entre os mortos aquele que está vivo? Muitas pessoas ficam focadas no vazio, no que não traz sentido, ao invés de tentar buscar esperança, vida, procurar sentido nas pequenas coisas do cotidiano”.

 Diante disso, de tantas angústias e de tantas coisas perdidas, o padre questiona: “O que pode renascer na tua vida, o que pode reviver? O que estava morto e pode ressuscitar? O que você não tinha e pode ter?”.

“Para quem está com angústia, o remédio é saber qual é o seu desejo, o que está buscando, que sentindo está dando para a vida. Não é buscar lá na frente, mas saber o que está te movendo. O que te move a continuar?”, conclui.