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29% dos brasileiros têm dificuldades na hora de interpretar textos

Aliar o bom estudo da Língua Portuguesa, evidenciando a interação entre o indivíduo e a cultura em que ele está inserido, aprendizagem significativa e a participação familiar resulta em bons leitores e escritores, explica professora  
Na última quarta-feira (08), foi celebrado o Dia Mundial da Alfabetização, o qual tem como objetivo fomentar a alfabetização em vários países. No Brasil, estima-se que 6,6% da população não saiba ler ou escrever, segundo dados da última pesquisa realizada pelo Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua Educação.  O número revela que no país ainda há 11 milhões de analfabetos, pessoas com mais de 15 anos ou mais que, pelos critérios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não são capazes de ler e escrever nem ao menos um bilhete simples.
 
Há ainda dados que mostram que 29% dos brasileiros são analfabetos funcionais, ou seja, não conseguem interpretar o que estão lendo, de acordo com o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), desenvolvido pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa e realizado pelo Ibope Inteligência. A pesquisa mostrou que os analfabetos “absolutos, 8%, que não conseguem ler palavras ou frases e números telefônicos, por exemplo, e os rudimentares, 21%, que têm dificuldade para identificar ironias e sarcasmos em textos curtos e realizar operações simples, como cálculo de dinheiro”, revela a publicação feita pelo Jornal da Universidade de São Paulo.
 
A problemática em não ser alfabetizado ou não ter uma alfabetização completa é grande, trazendo prejuízos no contexto pessoal, profissional e acadêmico do indivíduo. “Ler, escrever, interpretar e produzir textos com eficiência e com eficácia são requisitos básicos para compreendermos melhor a realidade e ter uma melhor atuação nos diversos contextos sociais, pois são estes instrumentos que ampliam a nossa visão e entendimento do mundo em que vivemos. O processo de formação de leitores e produtores de textos é longo, não se faz da noite para o dia, e não se restringe ao período de escolarização; está inserido num contexto amplo e complexo, no qual fatores de diversas naturezas – políticos, econômicos, culturais etc. – atuam como variáveis que definem as condições reais em que se desenvolve o letramento de indivíduos e de grupos socialmente constituídos. Ler e escrever devem ser hábitos a serem desenvolvidos constantemente nas famílias”, explica a professora de Língua Portuguesa, Angela Fernandes Pimenta, mestra em Estudos de Linguagens. 
 
A professora segue dizendo que nas aulas de Língua Portuguesa, a palavra é a construtora de sentido, portanto é a “alma” da aula, uma vez que por meio dela é possível “nos constituírmos enquanto sujeitos”.  Sendo assim, abordar a questão do protagonismo do estudante nas aulas de Língua Portuguesa, passa necessariamente por uma compreensão do que seria a linguagem, uma vez que os conceitos que os seres humanos têm sobre os elementos que os rodeiam, irão determinar a maneira como se posicionam em relação a esse elemento.
 
“Partindo de uma persepctiva de linguagem enquanto interação e pensando no desenvolvimento do protagonismo dos educandos, o professor deve conscientizar-se da possibilidade interativa que a língua oferece e, a partir disso, optar por determinadas ações acerca dos conteúdos e metodologias que darão aos alunos as condições de agirem autonomamente e de maneira protagonista nas diferentes situações concretas de uso da língua”, diz.
 
Assim, no cotidiano, a leitura é realizada em diferentes lugares e por diferentes motivos, sendo que é a própria pessoa quem determina a leitura que a interessa e onde irá concentrar a sua atenção. É por meio das palavras que existe a possibilidade de posicionamento – por isso a importância do contato com diferentes tipos de textos durante a alfabetização. 
 
Identificando a dificuldade
Segundo a professora Angela, em sala de aula, o aluno que tem dificuldades na interpretação de textos apresenta características que deixam o professor com atenção mais voltada à dificuldade. “Quando o aluno não compreende com sucesso a informação de um texto pode ser por desconhecer o significado de algumas palavras; enganar-se e não se aperceber que não compreende o texto e não fazer inferências. Pensar em como formar alunos que dominam a leitura e a produção de textos, preparados para as exigências de uma sociedade letrada, implicaria na necessidade de discutir como promover e estimular reflexões que envolvam todo o corpo docente, além de outros profissionais que atuam no espaço escolar, visando um objetivo comum”, ressalta.
 
Há ainda todo o contexto da vida cotidiana dos estudantes, suas dificuldades, que precisam ser levadas em consideração neste processo. “Os problemas de cognição podem prejudicar o aprendizado. O mais conhecido deles é a dislexia. Nesse contexto, verifica-se que é importante primeiramente, analisar a realidade externa e interna dos alunos inseridos no ambiente escolar, pois, é necessário conhecer realmente a vida, os sentimentos, os sofrimentos, a rotina e a família dos alunos que chegam até a escola e que apresentam tais dificuldades de aprendizagem”, acrescenta.
 
Assim, a professora Angela considera que por meio de um trabalho centrado no processo de alfabetização atualizado, as práticas de leitura e escrita conseguem atuar a partir do trabalho com múltiplas linguagens e com diferentes gêneros discursivos, desenvolvendo nos estudantes importantes ferramentas de empoderamento, inclusão social e protagonismo juvenil, uma vez que as atividades dessa natureza se enquandram em uma concepção que promove interação do indivíduo com a sua cultura, e o uso significativo da linguagem.