Quinta-feira às 25 de Julho de 2024 às 04:21:05
Saúde

Divertida Mente 2 reforça necessidade de falar sobre emoções em todas as fases da vida

Divertida Mente 2 reforça necessidade de falar sobre emoções em  todas as fases da vida

Estreia nesta quinta-feira (20) o tão aguardado filme da Disney/Pixar Divertida Mente 2, uma animação que continua com a história de Riley, agora mais velha, passando pela “tão temida” adolescência. Junto com o amadurecimento, a chamada “sala de controle”, onde ficam todas as emoções da jovem, também está passando por uma adaptação para dar lugar a algo totalmente inesperado: novas emoções. As já conhecidas - Alegria, Raiva, Medo, Nojinho e Tristeza - não têm certeza de como se sentir quando novos inquilinos chegam ao local, sendo eles a Ansiedade, o Tédio, a Inveja e a Vergonha.

No fim de semana de estreia nos Estados Unidos, a animação arrecadou 154,2 milhões de dólares. O filme é bastante aguardado não só por crianças, mas também por adultos e até mesmo profissionais das mais diversas áreas, justamente por ilustrar as emoções, provocando uma discussão importante sobre o assunto. “O filme retrata de uma forma lúdica as emoções, que já estão lá desde que nascemos, ou seja, são inatas ao ser humano. Cabe a nós a missão de aprender formas de lidar com elas. Além disso, algo muito importante mostrado é como diferentes emoções impactam na forma como lemos e interpretamos diferentes situações, de acordo com nossa história de vida, como por exemplo, quando a tristeza toca nas memórias de alegria e a Riley passa a se sentir nostálgica”, explica a psicóloga Ana Luisa Schmidt à Folha.

Ela comenta que gosta de imaginar que existe uma sala de controle na cabeça de cada um, como no filme,  e que diferentes emoções lideram diferentes pessoas, como por exemplo a alegria na Riley e a raiva no pai dela. “As emoções são complexas, independente da fase que se passa. Vejo que isso é algo sempre bom para termos em mente quando pensamos na relação dos responsáveis com adolescentes ou crianças. Na adolescência ainda, é o período em que os hormônios estão altíssimos e as mudanças acontecendo, seja pelo corpo crescendo e mudando rápido, gostos e personalidades que deixam de lado a infância, para se questionar e compreender quem são no mundo agora e do que gostam, cada situação passada e vivenciada ao extremo. Sendo assim, é importante a família exercer uma função de apoio e segurança, tendo em vista a quantidade de mudanças acontecendo, ou seja, servir como aquele local que não está sofrendo essa transformação, os responsáveis enquanto aqueles que estão ali, independente do que acontecer, para auxiliar, apoiar, ensinar e acolher quando for preciso.”

 Como as emoções influenciam

A psicóloga explica que as emoções exercem uma influência muito grande na vida do ser humano, e que a infância é uma fase de construção e desenvolvimento muito importante, então as possibilidades existentes nesse período refletem muito nas habilidades sociais existentes quando adulto, podendo até mesmo auxiliar no momento de elaboração de objetivos e metas de vida. “O principal fator influenciador é o contexto, ou seja, o quanto a criança possui liberdade e incentivo para expressar aquilo que sente, o quanto de estímulos existiram para que ela pudesse compreender o que é aquilo que a faz ficar brava, que a faz ficar triste e feliz. Isso diz muito de, quando se tornar adulta, o quanto autoconsciente de si será, ou seja, de quanto saberá entender o que se passa dentro da sua própria mente”, diz.

Por isso, vivenciar diversas situações e que provoquem sentimentos diferentes acaba sendo importante, segundo Ana Luisa. Ressalta que a tendência humana é sempre evitar situações que coloquem sentimentos considerados “ruins”, como a tristeza, o medo, a raiva, assim como no primeiro filme da franquia, porém sempre acrescenta que são nesses momentos, se permitindo viver a situação e acolhendo, que é possível conhecer outro lado do indivíduo. Acrescenta que assim é possível construir outro significado e olhar para a situação passada de uma outra forma, compreendendo que as emoções, até mesmo as negativas, são também repertórios de habilidades, respostas e comportamentos importantes para aprender a lidar com essas vivências.

“O amadurecimento emocional e as emoções refletem até mesmo na forma como nos comunicamos e, consequentemente, como nos relacionamos. A falta de uma consciência emocional, pode levar o sujeito a entrar em relações, seja familiar, amorosa, de trabalho ou amizades, disfuncionais, que geram um sofrimento tanto para ele quanto para os outros. Esse amadurecimento auxiliar na compreensão e na implementação de limites dentro das relações, os quais são muito importantes, além também que possibilitam uma melhor leitura tanto dos outros quanto de si mesmo, quando existe uma situação estressora para se lidar, como por exemplo, um conflito ou uma decisão difícil a ser tomada”, explica.

Pais, filhos e as emoções

O filme da Disney mostra o núcleo familiar vivenciando momentos únicos e que provocam diversas reações. A psicóloga ressalta que esse é um recurso lúdico para que as famílias comecem a falar sobre as emoções com os filhos, apresentando os personagens, visto que é brincando que as crianças iniciam o processo de aprendizagem e é implementando as emoções nas brincadeiras e nas conversas que esse conhecimento passa a ser absorvido e consolidado.

“A presença, incentivo e participação dos pais ou responsáveis nesse momento é imprescindível, pois eles são o espelho, aquilo que os filhos admiram e que buscam como inspiração. Com o novo filme, chegam também novas emoções, a vergonha, o tédio, a inveja e a ansiedade, que somam e se juntam com as emoções existentes, retratando algo que faz parte do processo de crescimento e aprendizado e também novos desafios para os pais da Riley acompanharem e auxiliarem ela. Saber o que se passa na cabeça do outro é impossível, mas você como responsável, pode auxiliar seu filho a aprender o que se passa dentro da cabeça dele”, orienta.

Ela finaliza dizendo que se tornar autoconsciente e saber nomear e compreender aquilo que está sentindo auxilia em diversos aspectos, como na tomada de decisões, lidar com situações consideradas estressantes, melhorar as relações em que está inserido, além também no aumento da autoestima por se sentir mais satisfeito com si mesmo.

“São sinais que podem indicar dificuldades emocionais, principalmente, o sofrimento, a dificuldade de lidar com determinadas situações, utilizando de grande agressividade, descontrole, fugas, que necessitam de uma maior atenção e cuidado. Acolher e incentivar a busca pela psicoterapia são formas de poder auxiliar a pessoa”, conclui.

Ansiedade é protagonista?

Nos trailers e vídeos promocionais do filme, quem rouba a cena é a ansiedade. Talvez o Brasil esteja tão “ansioso” pelo filme porque é justamente o país mais ansioso do mundo, conforme a Organização Mundial da Saúde. Dados de 2023 apontam que 26,8% dos brasileiros já receberam diagnóstico médico da doença.

“A ansiedade é um tema muito polêmico, que normalmente está relacionada a temas desagradáveis. Eu gosto de relembrar que é uma emoção como todas as outras. Ela não é necessariamente uma emoção positiva ou negativa, esse teor de classificação depende de cada pessoa. Criar planos ou ‘prever o futuro’ é algo muito importante para o nosso desenvolvimento. A ansiedade é importante principalmente na tomada de decisão e pode aumentar a frequência cardíaca e respiratória, fluxo de pensamentos para serem usados nesse momento, que pode ser enfrentar a situação ou fugir dela”, diz.

Acrescenta que em algumas pessoas a ansiedade aparece de maneira muito mais frequente, apresentando respostas fisiológicas que interferem no andamento da vida da pessoa, como dificuldade de dormir, sudorese, falta de ar, falta de concentração, distúrbios alimentares, entre outros, podendo desenvolver transtornos como fobia social, síndrome do pânico e outros. Nestes casos, o ideal é buscar ajuda profissional.