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Educação sexual e diálogo de confiança com crianças e adolescentes podem prevenir a violência sexual

Famílias devem ficar atentas às mudanças de comportamento, humor e sintomas físicos, além de restringir acesso aos conteúdos incompatíveis com a idade

Educação sexual e diálogo de confiança com crianças e adolescentes podem prevenir a violência sexual

Mudanças de comportamento, dificuldade em confiar, ansiedade, depressão, comportamentos autodestrutivos ou hipersexualizados, perda de apetite e tantos outros podem ser indicativos de que algo muito grave está acontecendo com crianças e adolescentes, exigindo atenção das famílias e isso pode estar ligado à violência sexual. Embora silencioso, o abuso sexual deixa marcas profundas em quem sofre, o que, infelizmente ainda é recorrente em todo o Brasil.

Carolina Gadens Marchiori, psicóloga especialista em Psicologia Clínica Cognitivo Comportamental (Fepar) e especialista em Sexualidade Humana (FMUsp) (CRP 08/15202), explica que quanto mais idade, mais consciência a pessoa tem e mais recursos verbais ela vai ter para comunicar a situação, e que elas devem ser ouvidas por pessoas que confiem, entretanto independente da faixa etária, existe sofrimento envolvido. “As consequências vão depender de alguns fatores como: tempo em que foi abusado, tempo que levou para ser descoberto o abuso, quem abusou, qual foi o suporte dado após a descoberta, desenvolvendo uma série de comportamentos e transtornos. Na vida adulta pode dificultar a vivência da sexualidade saudável, podendo ter algumas disfunções sexuais, como o vaginismo, por exemplo, e até dificuldade nos relacionamentos afetivos.”

As crianças expostas a algum tipo de abuso vão apresentar mudanças de comportamento, mudança no humor, como a irritação, podem apresentar medo - de dormir sozinho, por exemplo, sintomas físicos (vômito, diarreia, machucados próximos à região genital, dores de cabeça), passar a brincar com brincadeiras de cunho sexual, masturbação excessiva e pode passar a fazer desenhos de cunho sexual.

Ela cita ainda que é difícil identificar um pedófilo, por isso se torna imprescindível que os pais conversem com seus filhos, informem do risco e mantenham uma relação de confiança e proximidade para que, caso algo suspeito ocorra, os filhos se sintam à vontade para contar para os pais. “É importante que os responsáveis conversem com as crianças sobre as partes íntimas do seu corpo, quem e em quais contextos ela pode permitir que toquem (para limpeza, para um médico examinar e na presença de um adulto de confiança). Explicar que assim como não devem tocar nas suas partes íntimas, ela também não deve tocar nas partes íntimas de outras pessoas.  É importante também ensinar o que ela deve fazer diante de uma aproximação suspeita.

É necessário instruí-la a se afastar e a sempre contar o que acontece para um adulto de confiança”, diz.
Explica que é comum o pedófilo pedir “segredo” para a criança ou dizer que ela será punida pelos pais caso conte alguma coisa, por isso trazer essas informações para a criança, compatível com a idade dela – ressalta Carolina, irá deixá-la mais protegida e conseguir identificar uma situação de risco com mais facilidade. “Grande parte dos abusos pode ocorrer no ambiente familiar, então é importante estar atento às mudanças de comportamento, tais como ansiedade ou aversão a algum membro da família, alguma mudança brusca no comportamento. Caso a criança/adolescente verbalize um possível abuso é importantíssimo que ocorra o acolhimento e a proteção, afinal, se foi verbalizado para uma pessoa específica, provavelmente essa pessoa é o adulto que a criança mais confia. Existem bons livros infantis que podem auxiliar os pais a conversarem com as crianças sobre o assunto, como ‘Pipo e Fifi’ de Caroline Arcari e ‘Não me toca, seu boboca’, de Andrea Viviana Taubman”, indica.

Também é abuso sexual
A psicóloga alerta que o abuso sexual vai além do toque ou do ato sexual em si, mas há circunstâncias vivenciadas pela criança que são abusos sexuais. Um exemplo é a exposição a conteúdo inapropriado para a idade da criança ou adolescente, que contenham cenas de sexo ou que deem a entender o ato sexual e pornografia, por exemplo. “Ela está sendo exposta a uma situação inadequada para a sua faixa etária e pode levar a comportamentos onde é notado que a criança está sendo exposta a algum estímulo que não condiz com a sua idade”, acrescenta.

Pais e responsáveis também não devem praticar atos sexuais no mesmo ambiente onde crianças e adolescentes estejam, ainda que pareçam estar dormindo. “Pode ser considerada uma forma de abuso sim, afinal a criança está sendo exposta a uma situação que ela não tem maturidade psicológica para lidar. Pode gerar angústia por ela não saber o que está acontecendo e interpretar como violência, devido a barulhos e sons. Uma atitude como essa pode, inclusive, aumentar a chance da criança ser abusada, pois ela irá aprender que outras pessoas podem fazer com ela o que ela viu seus pais fazendo”, alerta.

Da mesma forma, orienta que os pais e responsáveis supervisionem os conteúdos que crianças e adolescentes estão acessando na internet, para evitar a exposição, recomendando o uso das ferramentas de controle para alguns conteúdos e sites. “Caso a exposição ocorra, quanto melhor for a relação de confiança entre pais e filhos, mais provável que eles levem as dúvidas até os pais, que devem esclarecer respeitando a faixa etária do filho. Se não tiver essa relação próxima e de confiança, aumenta a chance dos filhos buscarem informações em sites, com colegas e que não irão esclarecer da melhor forma”, diz.

Tratamento
Quando uma criança, adolescente ou mesmo um adulto passa por um trauma deste, é imprescindível o início de tratamento psicológico o mais breve possível, orienta Carolina. “Com a terapia é possível ressignificar e fazer com que essa ferida não interfira na vida da pessoa. Mas é uma cicatriz, ela estará lá. Em alguns casos, quando tem algum transtorno associado, como depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós traumático, disfunções sexuais e além do acompanhamento psicológico é importante também o acompanhamento psiquiátrico”, ressalta.

Esse tratamento psicológico também é indicado às famílias. “Os pais e responsáveis tendem a se culpar pelo que aconteceu, por não terem protegido o suficiente seu filho. A terapia é importante para que esses pais lidem com a sua dor e consigam dar suporte para seu filho. Outro aspecto importante é que em muitos casos o abusador pode ser alguém de dentro da família, para que o adulto de referência consiga lidar com a situação, inclusive denunciar o agressor, pode ser necessário o apoio psicológico”, finaliza.