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Saúde

Setembro Amarelo enfatiza necessidade de rede de apoio e tratamento durante momentos de tribulação

Fases difíceis fazem parte da vida, mas é preciso saber como administrá-las; isolamento social, causado por julgamentos, internet, brigas familiares, entre outros são as maiores causas do suicídio  
A campanha anual Setembro Amarelo começou, e com ela a necessidade de reafirmar, ainda mais neste mês, a necessidade do cuidado com a saúde mental e a prevenção ao suicídio, que pode ser evitado com tratamento adequado e rede de apoio. No cenário pós-pandemia, há fortes gatilhos que podem desencadear grandes problemas de ordem mental, como o luto, desemprego, instabilidade financeira, entre outros. 
 
A Folha conversou com a psicóloga Éllen Martins Salvador (CRP 08/24797), especializada em Terapia do Esquema, que explicou sobre a importância da campanha. “Temos um mês todo dedicado à saúde mental, assunto este que passa despercebido, mesmo que o suicídio seja uma grande causa de morte estatisticamente falando. É uma campanha que faz a diferença e digo isso por experiência própria, há cinco anos atuando no Setembro Amarelo. Além do interesse pessoal, o fomento de empresas falando sobre o assunto, o próprio movimento das redes sociais ajuda as pessoas a estarem mais conscientes sobre a sua saúde mental, ao invés de consumirem apenas conteúdos tóxicos hoje podem ler temas sobre como melhorar suas vidas, suas relações e como cuidar de si mesmas.”
 
 
Prevenção ao suicídio
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma a cada 100 mortes, estatisticamente, são suicídio e entre os jovens de 15 a 29 anos, essa foi a quarta causa de morte depois de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal.
 
A psicóloga explica que, para os estudiosos dos comportamentos suicidas, há definição de métodos de prevenção com base em fatores de risco. “Os maiores são doenças psiquiátricas; tentativas prévias de suicídio; histórico familiar de Transtornos Mentais; história de abuso físico ou sexual; uso de álcool e drogas, estresse e isolamento social. Este último com certeza foi agravado pelos problemas que estamos enfrentando nestes anos, mas não são os únicos responsáveis pela epidemia de suicídio que vivemos”, comenta.
 
Segundo a profissional, o maior de todos os problemas hoje ainda é o isolamento social. Não no sentido de distanciamento, por exemplo, causado pela pandemia, mas sim o isolamento que a sociedade vive hoje principalmente pelo mau uso das redes sociais, de brigas familiares, de pessoas cada vez mais infladas de ódio e sozinhas. “Ter uma boa rede de apoio, conseguir ser flexível e se adaptar às situações adversas encontrando soluções no lugar de ruminações vem sendo o fortalecedor de muitas pessoas que conseguiram se manter firmes psicologicamente dentro da pandemia de Covid-19”, completa.
 
Ainda, fatores como luto, doenças crônicas, dores e psicossomáticas, envolvimento em relacionamentos tóxicos, condições de trabalho que causem sofrimento e outros fatores desencadeantes pontuais como o desemprego, podem evoluir para estes pensamentos e merecem atenção de familiares e amigos. 
 
“O maior fator de risco, mais de 80% dos casos, é a presença de Transtorno Mental não diagnosticado e consequentemente não tratado. Para isso, recomendo que as pessoas se preocupem mais com a sua saúde mental e não esperem uma piora para procurar ajuda. O nosso DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) é bastante amplo e dificilmente conseguiria citar um a um, mas de maneira resumida, posso dizer que tudo aquilo que traz sofrimento e transtornos no dia a dia do indivíduo, sem causa fisiológica, deve ser procurada ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra, para que o mesmo ofereça um diagnóstico”, reforça.
 
“É importante alertar para uma busca especializada, pois há pessoas bem intencionadas que se dispõem a receber mensagens de pessoas que pensam em suicídio. Embora a intenção seja boa, para ter uma escuta de algo tão grave é preciso ter meios profissionais para auxiliar, se não a chance de não ser eficaz ou de trazer malefícios é grande. Se alguém te procurar dizendo estar em sofrimento psicológico não dê conselhos, nem psicólogo faz isso. Ao invés disso, ofereça meios para a pessoa procurar ajuda capacitada, principalmente do CVV (Centro de Valorização à Vida), que atende gratuitamente pelo telefone 188”, orienta.
 
Financeiro abalado,
emocional conturbado
Há ainda preocupações ligadas ao financeiro das famílias, que podem fazer com que o emocional fique conturbado e apareçam sinais de alerta. “O que é visível é o maior esgotamento físico e emocional de mulheres que precisam trabalhar, cuidar da casa e dos filhos sozinhas. Já nos homens, a maior causa de sofrimento é a falta de emprego e aposentadoria, por não se sentirem úteis e provedores alguns podem sentir-se sem propósito e sem motivo para viver. Ambos fatores devem ser observados e trabalhados preventivamente, para evitar problemas de saúde mental em ambas partes”, ressalta. 
 
Desta forma, contar com uma rede de apoio, pode ser fator preponderante para um início de recuperação, ponta pé inicial para pedir ajuda especializada. “Ter pessoas com quem contar faz toda a diferença em se sentir apoiado, seguro e acolhido, uma rede de apoio de familiares e amigos pode ajudar a encontrar soluções e até mesmo ajudar financeiramente. O lema do Setembro Amarelo é ‘Falar é a melhor solução’. Não dizemos isso para que as pessoas falem apenas nos casos graves de suicídio, e sim de pedir ajuda, quando se veem presas em situações sem saída”, diz. 
 
A ajuda também é bem-vinda quando a intenção é construir um emocional equilibrado, com inteligência. Entre as orientações está, além de procurar um profissional desde o início, para ter consciência dos sentimentos, assim como ler, assistir vídeos e se educar sobre o assunto. “A saúde mental pode sim ser conquistada, mas para isso é preciso ter consciência do que se faz com seu próprio tempo e uso da sua mente”, acrescenta.
 
Assim, será possível criar também gerações mais abertas a lidarem com seus próprios sentimentos, sem tabus. “As pessoas mais novas têm mais acesso à informação, algo que antes não era facilitado. Então esta noção sobre os sentimentos também é boa. O maior exemplo disso é o tanto de casamentos duradouros que haviam no passado as custas das esposas aguentarem traições, violências e abusos, por achar que isso era o certo. Esta geração de agora tem consciência do que pode ou não pode ser feito, e cobram seus direitos. A Psicologia vê isto de maneira positiva, desde que esta consciência gere mudanças na conscientização e procura de ajuda, não na propagação de ódio. Precisamos nos aproximar mais, o isolamento social causado pelo ódio só gera mais problemas e risco maior de suicídio”, finaliza.