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Saúde mental deve ser trabalhada em casa para prevenir o suicídio

A pandemia deixou toda a sociedade isolada e com a vida praticamente diante das telas, mas oportunizou a aproximação de pessoas que vivem na mesma casa e fez com que novos assuntos chegassem às conversas.

Por: Caroline Paulart

A pandemia deixou toda a sociedade isolada e com a vida praticamente diante das telas, mas oportunizou a aproximação de pessoas que vivem na mesma casa e fez com que novos assuntos chegassem às conversas. Assim, a conversa sobre a saúde mental e mesmo o suicídio também deve ser trabalhada na intenção da prevenção e principalmente na identificação da necessidade da busca por ajuda e tratamento.

“Digo que para os pais falarem de prevenção ao suicídio com os filhos, primeiro precisamos abordar a saúde mental no geral. Não só em casos graves. A saúde emocional deve ser tema em todas as famílias, abordar questões difíceis, oferecer apoio sem julgamento e principalmente espaço para a autoexpressão. Assim, os filhos não escondem o que sentem da família e a mesma pode estar preparada para lidar com as emoções destes. Falar de prevenção ao suicídio este ano se tornou mais importante ainda, pois estamos expostos a emoções dolorosas, que sem uma atenção especial podem gerar algo pior”, explica a psicóloga clínica Éllen Martins Salvador (CRP 08/24797), especializada em Terapia do Esquema.

A profissional segue dizendo que ao longo da vida haverá momentos de imprevistos, lutos, perdas, frustrações, e o modo como é regulada essa emoção que irá dizer se a pessoa está saudável ou não. “É natural que nestas situações citadas, por serem fora da nossa ‘zona de conforto’, causam estresse, ansiedade e tristeza. Quando alguém se vê preso em uma situação que parece não ter solução, é sempre importante procurar ajuda. Que seja de um amigo próximo ou de um profissional. Pedir ajuda é sinal de coragem e não de fraqueza, pois quando temos ajuda de alguém de fora podemos ver a situação por um novo viés e encontrar alternativas”, orienta.

Neste momento de pandemia, Éllen percebeu no consultório que alguns pacientes que estavam fazendo retirada de medicação tiveram de voltar a tomar a dose anterior e outros que estavam fazendo terapia a cada 15 dias voltaram a fazer semanal. Assim que a pandemia começou, a queixa mais ouvida foi sobre a ansiedade e agora passou a ser quadros depressivos.
Além dos fatores de isolamento social que contribuem para o surgimento de algum tipo de transtorno, outros fatores como biológicos e do ambiente que a pessoa vive também acabam exercendo influência. A psicóloga explica que existem ainda diferentes tipos de temperamento e criação familiar, que são os fatores determinantes da personalidade, como por exemplo alguém que prefere ficar isolado, com pouco contato externo, mas não significa necessariamente algo patológico. “Precisamos observar sempre se esse comportamento gera de fato algum transtorno na vida da pessoa, ou se é apenas como ela se sente bem. O processo de autoconhecimento auxilia nisso. No entanto, chamo atenção para os casos onde a pessoa tinha uma personalidade mais aberta socialmente, que mudou inesperadamente para o isolamento. Neste caso pode-se pensar em um quadro depressivo, onde a pessoa perde a vontade de se conectar com outras pessoas, sente cansaço, desconexão com o mundo e perda de interesse em atividades que antes lhe traziam prazer”, alerta.

Assim, Éllen explica que os Transtornos Mentais de fato possuem origem genética, porém o profissional analisa e leva em consideração também o histórico de problemas familiares na hora de direcionar um tratamento. Assim, se o paciente perdeu alguém por suicídio na própria família, por exemplo, é sinal que essa dor é vivenciada por todos, então esta pessoa com certeza será mais propensa a um pensamento suicida não só pela genética, mas também pela exposição aos Transtornos Mentais intrafamiliares, conforme explica.

Identificando comportamentos
“Para facilitar a identificação do comportamento suicida dizemos que existem 4Ds: desespero, depressão, desesperança e desamparo. E de fato, dentro da situação em que estamos, estes 4Ds são muito presentes. Desespero por não sabermos o futuro, depressão pela tristeza causada por isso, desesperança por não ver respostas e desamparo quando nos sentimos sozinhos”, diz.

Assim, ela comenta ainda que todas as emoções são naturais aos seres humanos e fazem parte do desenvolvimento, inclusive a ansiedade, tristeza, raiva, entre outros; a grande questão é quando eles estão desregulados. “Chamamos de desregulação emocional quando ocorre da intensidade e duração destas emoções estar além do considerado normal. Na ansiedade, por exemplo, existe uma ansiedade natural de se preocupar com o futuro, com os impactos da pandemia nos planos etc. Mas a partir do momento que essa ansiedade se torna recorrente, paralisante, angustiante para essa pessoa, impedindo de pensar em alternativas, neste caso ela precisa de atenção”, orienta.

“Marsha Linehan, criadora da Terapia Comportamental Dialética, que é a abordagem indicada para o tratamento do comportamento suicida, possui uma frase que levo como guia aos meus atendimentos, que é ‘uma vida que valha a pena ser vivida’. Gosto de pensar que mesmo dentro das piores situações, eu ainda consigo encontrar algo pelo que valha a pena viver. Se alguém não possui uma vida que valha a pena ser vivida, seja vivendo uma pandemia isolado em casa ou não, é por aí que devemos começar a trabalhar e cuidar. Recomendo a todos que procurem repensar os motivos que fazem a vida valer a pena e invistam mais neles, mesmo neste contexto difícil que estamos vivendo”, finaliza.

 

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